Responsabilidade assusta? Nathaniel Branden, estudioso deste tema, entende a responsabilidade pessoal como a prática de fazer acontecer o que se quer, em vez de esperar ou exigir que alguém o faça. Afinal, responsabilidade é uma atitude, habilidade, virtude, condição do ser humano adulto ou é um desprazer imposto? Acredito que pode ser tudo isso. Porém, vale lembrar que a expressão natural da pessoa adulta ou madura é a responsabilidade por si e isso é uma condição irrefutável. É uma lei da vida.
Branden afirma que quanto mais se pratica a responsabilidade, mais sua eficácia aumenta, e esta leva à percepção do poder pessoal para a auto-realização. Isso significa sentir-se poderoso e hábil para concretizar seus sonhos! Mas, na prática, muitas pessoas entendem a responsabilidade como assumir pesos e obrigações, como se o esforço e o trabalho implicassem sofrimento. Por isso, estes dividem seus afazeres em dois tipos: prazerosos ou chatos. Além disso, explicam as suas dificuldades em termos de atos de terceiros.
Nas organizações, isso é comum. A linguagem da irresponsabilidade predomina. “O sistema caiu”, “o projeto não foi terminado a tempo”, “a rentabilidade baixou”, etc. Não há um sujeito com poder de ação. “Os acontecimentos” é que se desencadeiam de maneira desfavorável e não há alguém responsável por eles.
Alguns transferem a culpa: “eu entreguei a minha parte no prazo, ele é que não devolveu a tempo”; ou quando o chefe diz para o subordinado: “eu expliquei... você é que não entendeu”. Por que estes não assumem a responsabilidade?
Quando a pessoa se sente assustada diante da vida adulta e impregnada com a idéia de que o ser humano é fraco, que é errado errar ou que a falha demonstra algum tipo de inferioridade, é mais confortável continuar funcionando como criança.
Alguns cultuam o receber de graça, sem esforço; porém, se isso fosse tão bom, as crianças não seriam tão ansiosas para chegar à idade adulta. Note-se que elas ganham “de graça” porque estão dependentes de alguém e não podem optar por ter o que quiserem, isto é, elas pagam com o sentimento de impotência. Isso não é agradável e é o primeiro passo para entrar na vítima, o que significa sofrimento.
Quantas birras não ocorrem por causa de um “não”? Por outro lado, o adulto ganha autonomia para escolher o que quer e pode pagar por isso. É verdade que, muitas vezes, ele tem um enorme trabalho para realizar seus sonhos, mas o importante é: se optar por isso, ele pode fazê-lo. Nada o impede, se ele quiser e se determinar de fato. Isso sim é poder. Então, é melhor ser criança? Será que alguém trocaria esta condição para voltar à dependência infantil?
Os que fogem da responsabilidade crêem que trabalho e esforço são ruins, mas isso é relativo. É assim quando o indivíduo está desconectado dos seus sonhos, o que torna a vida um sacrifício. Basta ler algumas biografias de pessoas bem-sucedidas e se verá quanto trabalho tiveram, mas o esforço não foi dolorido ou sofrido. A maioria tinha ânimo e prazer no seu trabalho, porque este estava alinhado com os seus propósitos. E as realizações compensam tanto que fazem esquecer o esforço e até os reveses do caminho.
Para aceitar a responsabilidade sem sofrer, é preciso abandonar a crença restritiva de que pagar o preço do que se quer é ser menos esperto. Ao contrário, é inteligente. O adulto já entendeu que a lei da vida é a troca justa e esta é ainda mais prazerosa do que ganhar, pois traz a sensação deliciosa de poder. Não adianta se iludir, nada é de graça. Tudo tem preço, mesmo que invisível, sutil ou psicológico. Por outro lado, tentar fugir das responsabilidades pode ter um preço altíssimo!
Trabalhar é usar diariamente o próprio poder. Vida fácil não existe. Ela é um desafio para todos e o objetivo é justamente levar-nos aos limites para aprendermos mais e evoluir, descobrindo e usando cada vez mais tantos recursos. Uma vez que crescemos, quanto mais conseguimos assumir essa condição inevitável de responsáveis, mais ganharemos, em troca, autonomia e competência para sermos eficazes e realizados.
* Elizabeth Zamerul é presidente da Realize - Desenvolvendo Inteligências, Coach e autora do livro Corações Poderosos – Uma visão positiva das emoções no trabalho.