Procurando motivação?
Reconhecimento, autonomia, aumento de salário são alguns dos combustíveis que movem um profissional motivado
Mas onde encontrar e manter acesa essa fagulha que impulsiona os bem-sucedidos?
Por Arthur Diniz*
Falar sobre motivação é sempre um grande desafio. Se formos nos basear na semântica, motivação é simplesmente aquilo que motiva pessoas para uma ação. No entanto, uma das questões mais polêmicas quando se toca no assunto é se esse motivo vem de dentro de cada um ou do ambiente externo. Pela minha experiência de trabalho, acho que a resposta é simples: a motivação pode vir de cada um de nós ou pode, também, originar-se de fatores ambientais. Segundo o especialista em Administração e Recursos Humanos, Idalberto Chiavenato, motivação “é tudo aquilo que impulsiona a pessoa a agir de determinada forma ou, pelo menos, que dá origem a uma propensão a um comportamento específico. Esse impulso pode ser provocado por um estímulo externo e pode também ser gerado internamente nos processos mentais do indivíduo”. Concordo inteiramente.
Para nos aprofundarmos um pouco mais na questão, é interessante conhecer algumas teorias sobre o tema que mais sucesso têm feito. De todas que estudei e comparei com a prática, destaco três: a da hierarquia das necessidades, de Abraham Maslow, a de Frederic Hezberg, que divide os fatores da motivação entre higiênicos e motivacionais e, finalmente, o conceito DISC, desenvolvido por Marston.
Hierarquia das necessidades
Vamos começar pela teoria mais famosa, a de Maslow, que desenhou uma pirâmide criando uma hierarquia para as necessidades humanas. Somente após a satisfação de um nível de necessidade, passamos ao outro. E, cada vez que preenchemos um degrau de maneira completa, surgem naturalmente as necessidades do nível seguinte.
O primeiro é o das necessidades fisiológicas : comer, beber, abrigar-se do frio e do calor, dormir, repousar e ter relações sexuais. São necessidades que garantem a sobrevivência do indivíduo ou de sua espécie. Mas quando alguma delas não está satisfeita, esta domina a direção do comportamento da pessoa. Ou seja, enquanto estou passando fome, não sinto necessidade de me realizar, por exemplo.
O segundo nível é o da segurança . Trata-se das necessidades relacionadas à proteção física, levando o indivíduo a proteger-se de qualquer perigo real ou imaginário, físico ou abstrato. Surgem quando as necessidades fisiológicas estão relativamente satisfeitas.
O próximo degrau é o das necessidades sociais . Estão relacionadas à ambição das pessoas de pertencerem a grupos. Todos nós precisamos nos sentir inseridos a um conjunto de indivíduos que nos aceitem como somos e que compartilhem alguns valores, idéias ou ideais. Quando não estão suficientemente satisfeitas, as pessoas tornam-se resistentes, antagônicas e hostis com relação àquelas que a cercam.
Em seguida vem o nível das necessidades de estima . São os sentimentos que cada um tem por outras pessoas e os sentimentos que é capaz de provocar nos outros a seu respeito. Todos precisam se sentir queridos de alguma forma.
Por último vêm as necessidades de auto-realização , que levam cada pessoa a tentar realizar seu próprio potencial e desenvolver-se continuamente ao longo da vida. Trata-se da busca por fazer a diferença e realizar sua missão no mundo. É quando as pessoas querem participar de algo maior que simplesmente ganhar dinheiro.
A teoria de Maslow traz grandes contribuições para entender a motivação no dia-a-dia. Fica claro para mim, por exemplo, porque o trabalho de coaching tem mais impacto em profissionais que já estão em níveis mais elevados em suas carreiras. Isso ocorre porque o coaching procura ajudar as pessoas a encontrar respostas sobre o que as deixará realizadas. Trabalha fortemente no nível mais alto da pirâmide. Mas quando o indivíduo ainda não supriu suas necessidades mais básicas, dificilmente vai se preocupar com realização pessoal. O importante mesmo é o “leite das crianças”.
Fatores higiênicos X fatores motivacionais
Segundo Frederic Hersberg, a motivação depende basicamente de dois fatores: higiênicos e motivacionais. Os higiênicos ou fatores de manutenção são aqueles que as pessoas devem receber das empresas como um mínimo para que se esforcem no trabalho. Incluem:
• Condições de trabalho e conforto
• Políticas de organização e administração
• Benefícios
• Salários
• Segurança no cargo
Hezsberg concluiu que, depois que esses fatores são satisfeitos, não adianta tentar aumentar um deles para conseguir maior motivação dos profissionais. A expressão higiene serve exatamente para refletir seu caráter preventivo e mostrar que se destinam simplesmente a evitar fontes de insatisfação. Ninguém vai trabalhar com mais afinco porque uma empresa decide incluir, por exemplo, um plano odontológico como benefício adicional. Entretanto, se as pessoas não estiverem satisfeitas com alguns desses fatores, elas não vão se esforçar muito. Como conclui Chiavenato no seu livro Recursos Humanos , “os fatores higiênicos não conseguem elevar substancial e duradouramente a satisfação. Porém, quando são precários, provocam insatisfação”.
Já os fatores motivacionais operam de maneira diferente. Eles incluem:
• Reconhecimento
• Oportunidades de crescimento
• Delegação de responsabilidades
• Autonomia
• Promoção
• Uso pleno das habilidades pessoais
• Estabelecimento de objetivos e avaliação relacionada com eles
• Possibilidade de realização
Esses fatores são aqueles que podem realmente motivar as pessoas a trabalhar com afinco e dedicação. Diversos levantamentos feitos por empresas especializadas mostram que essa conclusão faz sentido. Não adianta pensar que pagar mais e dar benefícios será suficiente para ter profissionais altamente motivados. É incrível que muitas empresas e líderes não consigam ver isso com clareza. E vários que enxergam não colocam o conceito em prática. Pergunto : O que é mais difícil fazer? Dar bônus e punir erros é muito mais fácil do que reconhecer, treinar e servir para atingir outros níveis de inspiração.
O conceito DISC
No início do século XX, o psicólogo William Marston constatou que, até então, todos os estudos da mente estavam voltados para o conhecimento da mente doente. Resolveu estudar as pessoas normais e lançou, em 1928, o livro Emotions of normal people (Emoções das pessoas normais). Ele dividiu os indivíduos baseando-se em dois vetores. No eixo horizontal temos, de um lado, pessoas ativas e, do outro, pessoas mais passivas. Já no eixo vertical, pessoas que vêem o mundo de forma antagônica e aquelas que encaram as situações de forma mais otimista e amigável. Com isso, formamos os quatro perfis básicos de comportamento: dominância , influência , conformidade e estabilidade .
Todos nós somos resultado da combinação desses quatro perfis. Entretanto, a grande maioria das pessoas tem um ou dois perfis dominantes. Identificar o seu e o das pessoas que lhe cercam pode ser a mola que faltava na busca da motivação.
Cada um dos perfis tem características, valores e motivadores distintos. Por isso, vamos entender um pouco mais esses perfis para saber como utilizá-los. Comecemos pela dominância. Para simplificar, chamaremos as pessoas com alta dominância de Alto D. Elas são profundamente focadas em resultados, são ágeis, desafiam a si mesmas e aos outros constantemente, são impacientes e impulsivas. Têm como valores mais importantes no trabalho o poder e o dinheiro.
Já os indivíduos com Alto I têm características bem diferentes. São alegres e otimistas, estão constantemente construindo relacionamentos, fazendo amigos e desenvolvendo seu networking. Ficam sempre no centro de grupos, organizando eventos e animando grupos, com sua informalidade e descontração. São comunicativas, irreverentes e persuasivas.
Pessoas com Alto S são aquelas que têm como valor maior a segurança. Buscam estabilidade, são calmas e pacientes, e fazem seu trabalho com consistência, sem nunca deixar algo por fazer. Não gostam de mudanças súbitas ou radicais e costumam trabalhar por muito tempo na mesma área e na mesma empresa. Amizade e fidelidade são fundamentais para elas.
Aqueles com Alto C trabalham em conformidade com as regras e procedimentos. São detalhistas, disciplinados e perfeccionistas. Gostam do “preto no branco” e de trabalhos mais especializados, que exijam cálculos sofisticados ou estudo aprofundado.
Interessante, não é? Já conseguiu identificar o seu perfil? Começou a analisar o das pessoas a sua volta? Existem testes automatizados que podem identificar seu perfil em poucos minutos.
O que motiva as pessoas?
Depois de identificar seu perfil, o mais importante é entendermos agora quais são os fatores que motivam cada um. O Alto D tem como motivadores principais o poder e o desafio. Precisa medir os resultados que alcança. Uma boa remuneração é fundamental para ele, e necessita também ter autonomia para trabalhar, sem excesso de regras e controles. Diversidade de tarefas e inovação constante ajudam.
Já o Alto I precisa trabalhar em atividades que envolvam muitas pessoas. Ser popular é fundamental para ele e estará motivado se for reconhecido publicamente, se puder participar das decisões da empresa e ter gestores democráticos. Como o Alto D, precisa de liberdade de ação, pois não gosta de ficar preso a tarefas burocráticas e com muitos detalhes.
O Alto S necessita de segurança para trabalhar com tranqüilidade. Desmotiva-se facilmente em ambientes de alto risco. Em contrapartida, fica ainda mais motivado em ambientes familiares e menos competitivos. Elogios sinceros são um grande combustível para ele. Precisa desse reconhecimento constante.
Precisão e certeza são os grandes impulsionadores do Alto C. Tem necessidade de saber exatamente o que é esperado dele e de tarefas que exijam alta capacidade analítica. Assim como o Alto S, não gosta de mudanças súbitas e principalmente mal planejadas.
Como se vê, diferentes pessoas motivam-se de formas distintas. Cabe a cada um buscar um trabalho que se encaixe ao seu perfil. Conhecer-se é sempre o primeiro passo.
Muitas vezes, em meu trabalho de coaching de carreira, basta entender o seu perfil e o do seu trabalho para saber por que a pessoa está desmotivada. Quem sempre foi atrás da melhor oportunidade financeira, normalmente termina em trabalhos que não o motivam.
Não adianta buscar uma receita de bolo. Na minha visão, essas três teorias se complementam e formam um bom manual para quem deseja entender mais sobre o que motiva cada um.
Como chegar lá
E você, está motivado? Está inspirado no seu dia-a-dia ou sofre da síndrome do programa Fantástico e fica triste sempre que ouve a musiquinha no domingo à noite? Vamos ver o que pode estar faltando.
O primeiro exercício para iniciar a busca pela motivação perdida é o de pensar em sonhos. Sente-se num lugar tranqüilo e escreva num papel quais são os seus sonhos para cada uma dessas áreas:
• Carreira/trabalho
• Família
• Espiritualidade
• Saúde
• Forma física
• Desenvolvimento pessoal
• Dinheiro
• Ambiente Físico
Começa-se sempre pelos sonhos porque quando se sonha nada é impossível. Agora responda honestamente: realizar esses sonhos lhe inspira de verdade? Se a resposta for sim, diga então o que lhe impede de realizá-los? Não tenho nenhuma dúvida de que só você mesmo pode impedir. Porém, se não possui mais sonhos, provavelmente nada vai lhe deixar motivado. Pense em seus sonhos de criança e tente reavivá-los. Tente lembrar agora qual foi o momento da sua vida em que se sentiu mais motivado. Que fatores contribuíram para sua motivação? Qual o mais importante? Você tem esses fatores no seu trabalho hoje? O que está faltando? Onde você pode conseguir o que falta?
Certamente, essas perguntas lhe ajudarão a definir o que quer na sua vida e a começar a traçar metas. E para transformar sonhos em metas, basta utilizar o modelo de coaching em quatro passos, que foi desenvolvido pela Erckson College, no Canadá. A cada sonho ou desejo que você tem, responda as questões a seguir:
1. O que você quer? Qual é o seu objetivo? Por que você quer isso (valores)?
Está sob seu controle? Está ao seu alcance?
2. Como você pode conseguir isso? O que precisa fazer para chegar lá? Quem você precisa ser? O que precisa ter? Qual o primeiro passo que você pode dar agora para alcançá-lo?
3. O que pode impedi-lo? Planos de contingência?
4. Como vai saber que conseguiu? Se você já tivesse alcançado, como seria?
Parâmetros de avaliação e pontos de controle
Se você responder a essas perguntas, conseguirá estabelecer metas claras e específicas. Isso vai lhe motivar? Depende. Lembre-se de uma coisa fundamental: não importa o que você quer, mas o quanto quer isso. Quando você quer muito, qualquer objetivo dificilmente terá sua motivação reduzida pelos obstáculos do cotidiano. Quando você quer alguma coisa de verdade, e isso lhe inspira, nada vai apagar sua chama. Portanto eu lhe pergunto: o que você quer de verdade?
* Arthur Diniz é economista, tem MBA pela Columbia Business School, Certificado Internacional de Coaching pela Lambent e pelo Erikson College no Canadá, e curso de extensão em Coaching Estratégico pela FIA-USP. Atua como coaching e é fundador da Crescimentum Coaching for Performance.