Nesta era do conhecimento, as palavras de ordem são aprimoramento constante, pois a cada dia surge algo novo, que precisa ser absorvido e bem entendido. Mas como se ensina um adulto a aprender?
por Mauro Cezar Pereira
Aprender depois de certa idade é, quase sempre, mais difícil. Cansaço, os anos de currículo escolar, compromissos profissionais, responsabilidades pessoais, problemas do dia-a-dia, ou seja, tudo o que afeta e mexe com a vida do adulto pode se tornar um obstáculo para a aprendizagem. Não por acaso, treinamentos, palestras, workshops e afins nem sempre geram o resultado esperado. Muitas vezes a pessoa está ali, presente, apenas fisicamente. Pouco, ou nada, absorve. A andragogia, método que costuma causar polêmica, pode ser uma saída para ajudá-lo a aprender a aprender, sempre.
A técnica vai além das “velhas” aulas expositivas, em que o professor era o personagem principal. A andragogia, por sua vez, estimula a interatividade, a troca, a comunicação entre quem ensina e quem está lá para aprender. E no caso do adulto, torna-se ainda mais interessante, já que, pelas razões acima enumeradas, sua mente está, invariavelmente, ocupada por uma série de outras questões, o que pode dificultar a concentração e o armazenamento de informações.
Métodos pedagógicos clássicos muitas vezes são pouco eficientes quando aplicados a adultos, cansados após um dia de trabalho e incapazes de conseguir concentração suficiente para tirar proveito de uma aula convencional. A andragogia foi a resposta adequada a essa necessidade por levar em consideração as características psicológicas de quem quer e precisa aprender novos conteúdos.
Segundo seus adeptos, o método é capaz de produzir uma aprendizagem mais eficiente e profunda, menos volátil. Atua com base na percepção dos conceitos e princípios dos conhecimentos, não apenas na memorização. Os que a defendem afirmam: ela pode destruir “verdades” tradicionais, como a de que os adultos não conseguem aprender ou o fazem devagar.
O caminho das pedras
O raciocínio é de que o líder não precisa e não deve ter todas as respostas para todas as perguntas, mas sim conduzir o grupo para a criação. Ele age como um facilitador. Alguém que compartilhará, estimulará e ajudará o grupo a estruturar o conteúdo, promovendo a autogestão e a criatividade. E esse processo só é possível através da experiência, pois os adultos precisam vivenciar fatos e situações para que os conceitos sejam absorvidos.
A tese é de que a dificuldade de aprendizado dos mais velhos residia nos métodos pedagógicos inadequados, não na incapacidade. No trabalho andragógico, a proposta é modificar o conceito de que o professor ensina e o aluno aprende. Ao lançar-se mão desse método, todos aprendem, inclusive o professor.
“A andragogia pode tornar mais prolongada a vida produtiva das pessoas, uma vez que seus conhecimentos são reciclados e atualizados com mais freqüência e maior eficiência”, afirma o professor Roberto Cavalcanti, do Curso de Medicina do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa.
Adepto e estudioso da andragogia, o consultor em Planejamento e Gestão de Negócios, Vendas e Marketing Rodrigo Goecks aponta os caminhos da aprendizagem pelo método recorrendo aos números.
“Algumas pesquisas apontam que estudantes adultos aprendem apenas 10% do que ouvem, após 72 horas. Entretanto são capazes de lembrar 85% do que ouvem, vêem e fazem, após as mesmas 72 horas”, cita. Esses índices são animadores, mostram que há espaço livre no “reservatório” que armazena as informações acumuladas na mente mais madura.
Ele ressalta, no entanto, que pensar por meio de estímulos lógicos e racionais não basta. “É necessário o envolvimento, é preciso sentir para gerar estímulos interiores e emocionais”, observa. “Dessa forma, o sentir estimula o querer, transformando em vontade e ação”, acrescenta.
Por isso, andragogia pode ser definida como a ciência e a arte que se desenvolve por meio de uma prática fundamentada nos princípios da participação e da horizontalidade. Traduzindo, não é um método que tenha no mestre, no professor, um personagem que fica degrau acima, transmitindo, mas sim todos em mesmo nível, trocando conhecimentos e se estimulando mutuamente.
Auto-realização
Tal processo, com sinergia, permite incrementar o pensamento, a autogestão, a qualidade de vida e a criatividade do participante adulto. A meta é proporcionar uma oportunidade para que se atinja a auto-realização. Tanto que a utilização da andragogia nas universidades é uma prática realizada atualmente. E também era no passado distante.
Nos tempos da Antiga Grécia ocorriam verdadeiras batalhas argumentativas em salas de aula. “Nelas, os alunos desenvolviam agilidade mental, raciocínio lógico e conhecimentos sólidos”, destaca o professor Roberto Cavalcanti, da Universidade Federal da Paraíba. Da mesma forma, ele recorre à andragogia para uso próprio - com seus alunos do curso Medicina, todos adultos jovens, na faixa de 22 a 25 anos.
“Andragogia não é sinônimo de educação de adultos, embora alguns de seus princípios sejam úteis ao processo de aprendizagem. O ensino voltado aos profissionais é inspirado, hoje, em um conceito complexo, contínuo e integrado. Ele prevê situações diversas e complementares”, argumenta Paula de Waal, professora de Tecnologia da Educação na Universidade de Padova, na Itália, e consultora da Mentat/dynamiclab na área de EAD e educação continuada.
Para Rubens Portugal, que comanda o instituto que leva seu nome, ela é a educação adequada do adulto porque respeita os seus pressupostos. “Há 50 anos nós treinávamos os empregados para serem robôs. Quando os robôs de verdade chegaram, vimos que tínhamos de educar os colaboradores para tornarem-se homens”, reflete.
Ele recorda que antigos chefões temiam a autonomia do subordinado e hoje se constrói o ambiente para a formação de verdadeiras equipes exatamente quando ela se maximiza sem ameaçar a harmonia que é assegurada pela conscientização. Esse equilíbrio pregado por Portugal reforça o conceito de horizontalidade. “É a verdadeira educação de adultos pois visa permitir alcançar a plenitude de cada um”, reforça.
Em sala de aula, Rodrigo Goecks recorre a alguns questionamentos e já viveu situações claras. Tem recebido e-mails sobre diversos casos e vê que há vários interessados implementando experiências andragógicas em escolas e faculdades. Rodrigo acredita que, apesar da rigidez dos programas, é possível implementar algumas práticas capazes de facilitar o aprendizado e estimular o desenvolvimento desses jovens.
“A educação contínua de adultos é necessária. A obsolescência das informações, dos perfis profissionais, e dos modelos de resolução de problemas nos obrigam a um interminável processo de renovação do próprio saber e das competências”, defende Paula de Waal. Para ela, gestão, dinâmica dos saberes e das competências das organizações são setores estratégicos em crescimento nas empresas. Daí a defesa da andragogia.
Na prática
Experiências com o ensino andragógico
Problema: Como desenvolver uma avaliação que estimule e mensure as habilidades necessárias diante de um cenário de diversas mudanças? Como desenvolver no grupo uma visão do todo? Como tornar a avaliação em algo motivante?
Experiência: Foi ministrada uma prova na qual os alunos eram responsáveis pela elaboração das perguntas e das respostas. A avaliação deu-se pela qualidade de ambas, buscando do aluno um entendimento amplo e a capacidade de elaborar as questões.
Resultado: Foi surpreendente a qualidade das questões. Obtivemos um resultado muito positivo e, conforme o feedback dos alunos, o processo de avaliação se mostrou bastante estimulante.
Lição extraída: No cenário atual de grandes e rápidas mudanças, o mais importante é a capacidade de formular as questões certas, pois as respostas certas de hoje podem não ser válidas para o amanhã.
Problema: Como construir o conteúdo da aula utilizando as experiências dos participantes? Como estimular e desenvolver no grupo a capacidade de formulação de questões?
Experiência:
Passo 1 - Foi realizada uma explanação de 50 minutos, lembrando que o conteúdo maior virá das experiências.
Passo 2 - Os participantes foram convidados a se dividirem em grupos (no máximo de cinco) para discutir o conteúdo e associá-lo com a realidade. Uma forma de fazê-lo é utilizar um texto (reportagem, caso etc.) e solicitar que a equipe elabore perguntas para serem discutidas em plenário. As questões não podem ser fechadas, elas precisam estimular o debate e a troca de experiências e percepções. Dessa forma o grupo digere o conteúdo e o pratica.
Passo 3 - Discutiu-se cada pergunta colocada no plenário. Os conceitos foram expandidos e as respostas compartilhadas.
Passo 4: Após as questões serem respondidas, o facilitador fez uma retrospectiva extraindo da equipe as ações e conclusões compartilhadas. Uma forma de manter a seqüência e resgatar algo que não foi totalmente digerido é, ao longo do processo, anotar na lousa os tópicos e as perguntas abordadas. A postura do facilitador é de estimular o grupo a seguir o caminho do aprendizado.
Resultado: O grupo envolveu-se completamente na construção do conteúdo e sentiu-se responsável pelo mesmo. Gerou-se elevado nível de comprometimento e absorção.
Lição extraída: Quem é o professor neste caso? O conteúdo do grupo e do facilitador foi de igual importância e a soma das experiências mostrou ser a grande riqueza do processo.
Nas empresas
Técnica permite reciclagem e atualização contínua
Nas corporações os métodos andragógicos têm sido utilizados na gestão de pessoas, planejamento estratégico, marketing, comunicação, processos de qualidade etc. De simples reuniões a complexos projetos, muitos seguem fórmulas baseadas nesses conceitos.
"As empresas já perceberam as vantagens e rapidamente implementaram programas de formação para transformar seus funcionários em facilitadores permanentes dentro da organização", diz Goecks. O facilitador, ou seja, quem está na posição do professor, do palestrante, precisa ser humilde o bastante para se manter em segundo plano. "Como um juiz de futebol, que é tido como bom, quando os jogadores e a torcida não percebem a sua presença", compara, recorrendo a uma frase de Joseph Jacotot: "É preciso que eu lhes ensine que nada tenho a ensinar-lhes".
A missão do facilitador está justamente em estimular os participantes a ter um posicionamento ativo no aprendizado, provocar experiências, fomentar a capacidade de auto-avaliação e de trabalho em equipe, evitando a passividade e o esmorecimento. “Isso pode ser definido por uma citação de Rudolf Steiner: Não importa que eu tenha uma opinião diferente do outro. Mas que o outro encontre o certo, a partir de si próprio, se eu contribuir um pouco para tal ", destaca. Fato: é preciso, da parte de todos, criatividade e flexibilidade.
O que se pode fazer?
É possível estruturar desde uma simples reunião de trabalho até um processo de planejamento estratégico com métodos andragógicos. Antigamente - e em algumas companhias até hoje - a diretoria desenvolvia o plano estratégico e comunicava aos colaboradores em reuniões maçantes e relatórios. O resultado é que no papel tudo ficava bonito e na prática a implementação era um desastre. Hoje há organizações envolvendo níveis básicos neste processo porque descobriram a importância de coisas aparentemente pequenas. Como a telefonista que atendeu um “ex-futuro cliente". "Sim, pois se não forem participativas e bem orientadas, poderão cometer deslizes como falar com essas pessoas como se estivessem dialogando com a babá do próprio filho”, adverte o consultor Rodrigo Goecks.
Para Cavalcanti, quem desconsiderar a necessidade de capacitar e atualizar seus recursos humanos pelos métodos mais rápidos e eficientes, mal conseguirá satisfazer o cliente, sendo facilmente superado num mercado globalizado, ágil e concorrido. "Com duas palavras posso dar uma idéia da dimensão do risco: obsolescência e desemprego", resume Paula De Wall. E Rubens Portugal completa: "Pessoas e empresas podem ficar para trás em competitividade porque ninguém compete bem quando tem empregados robôs ao invés de colaboradores, verdadeiros homens livres e inteligentes".
“Não há desenvolvimento de lideranças sem a utilização de caminhos andragógicos”, afirma Rodrigo Goecks. Ele salienta que, quando se aborda o desenvolvimento de lideranças, a andragogia é amplamente utilizada. "Para competir, as empresas precisam mais do que colaboradores que dizem amém , elas necessitam de líderes que fazem a diferença". E mais: as empresas precisam errar menos e fomentar o aprendizado constante, necessitam, então, de processos e pessoas que estimulem e estruturem este ambiente.
Nas faculdades
Especialistas sugerem revolução no ensino
Na educação formal, a andragogia também pode ser aplicada, em especial no ensino de terceiro grau. Os cursos de graduação cada vez mais procuram aderir de modo parcial ou total ao uso de metodologias andragógicas. A formação de adultos, hoje, utiliza os princípios da andagrogia em conexão com outras teorias.
Nos últimos 10 anos, por exemplo, passou-se a recorrer aos recursos como jogos, teatro, ambientes digitais estimulantes, experiências de tipo outdoors - técnicas criativas ao ar livre que inicialmente eram adotadas na educação infantil. Alguns segmentos da didática de adultos, porém, exigem trabalhos específicos, basta pensar na alfabetização de adultos como exemplo.
“Não há a menor dúvida de que a andragogia deverá ser estimulada. É necessário realizar uma reforma profunda em todo o sistema educacional, a partir do ensino médio e fundamental. Nosso sistema é anacrônico”, resume o professor Roberto Cavalcanti. Para ele, a didática é demasiadamente rígida, engessada dentro de uma estrutura de séries e disciplinas que não leva em conta as variações individuais e trata todas as pessoas como iguais.
“Tudo deve começar na universidade que, a meu ver, está mais atrasada do que a empresa moderna, sem o foco nos negócios porque fica olhando para o próprio umbigo”, diz Portugal. Ele acrescenta que a melhor educação de adultos no Brasil ocorre dentro das companhias mais abertas, arejadas, avançadas, não na universidade. “Lá ainda se pratica o sadismo pedagógico através da nota numérica , dispara.
Tudo começou na Grécia Antiga
Mais do que uma novidade, a andragogia foi redescoberta. Seu uso resgata uma forma de ensino que vem da Antigüidade. Os filósofos gregos, como Sócrates, Platão e Aristóteles, ensinavam a adolescentes e adultos em grupos pequenos, com grande interação. Nesses encontros, recorriam amplamente à discussão, à dialética, à dedução, à indução.
O vocábulo andragogia foi inicialmente utilizado por Alexander Kapp, professor alemão, em 1833, para descrever elementos da Teoria de Educação de Platão. O termo foi esquecido e voltou a ser utilizado em 1921, por Rosenstock, para significar o conjunto de filosofias, métodos e professores especiais necessários à educação de adultos.
Na década de 1970, a andragogia foi retomada na Iugoslávia, Holanda, França e Suíça, onde Pierre Furter, professor da Universidade de Genebra, propôs a substituição drástica da Pedagogia por ela, já que o ensino não mais se prendia apenas às crianças, mas também a adolescentes e adultos. Isso acirrou os ânimos dos pedagogos e levantou uma muralha de resistência contra a "novidade". Enquanto isso, nos Estados Unidos, Malcolm Knowles era o nome mais expressivo a divulgar a Andragogia.
Do ponto de vista profissional, o ensino andragógico existia já nas oficinas dos artesãos, desde a idade média e início da revolução industrial. Mestres admitiam aprendizes a quem ensinavam seus ofícios, numa interação estreita, praticamente guiando as mãos dos auxiliares em cada movimento. Isso era feito até que eles atingissem o nível de habilidade necessário para trabalhar sozinhos.
Durante a Idade Média, a "Idade das Trevas", quando o conhecimento clássico ficou sob o monopólio da Igreja, surgiram as escolas monásticas. Elas foram criadas nos conventos beneditinos e preparavam jovens para os serviços religiosos. Diferente da academia e do liceu gregos, não admitiam liberdade, criatividade ou valores pessoais dos alunos.
A meta ali era fazê-los adquirir os conhecimentos essenciais para a vida religiosa: aprender a ler, escrever, traduzir para o latim e o grego, solfejar, cantar (hinos) e interiorizar todos os dogmas da Igreja como verdades divinas, indiscutíveis. "A nossa Pedagogia atual é descendente direta desta escola medieval" destaca o professor Roberto Cavalcanti.