Funcionários (quase) sob controle
Aos poucos, empresas aprendem a conviver com as ferramentas eletrônicas de comunicação que podem aumentar ou diminuir a produtividade no trabalho

Por Patrícia Mazocato

Há nas empresas um duelo silencioso em que as armas são o mouse e o teclado. Empregados e empregadores lutam pelo controle das ferramentas tecnológicas que – para o bem e para o mal – tornaram tênue a separação entre casa e trabalho. Como o celular, o notebook e a Internet levaram as urgências profissionais e os relatórios para dentro da rotina doméstica, fica cada vez mais difícil delimitar o ambiente corporativo e os momentos de lazer – e vice-versa. “Se eu me distraio horas na Internet, durante o trabalho, quanto tempo eu gasto em casa na solução de problemas profissionais?”, questiona Tânia Gomes Bischoff, psicóloga organizacional e professora da PUC-RS.

A invasão recíproca dos dois ambientes se evidencia nos resultados da Web@Work 2006, pesquisa realizada pelo segundo ano na América Latina pela Websense, empresa norte-americana de softwares de segurança e filtragem da Internet. Ao serem questionados sobre o uso de aplicativos e sobre os hábitos de navegação na web dentro da empresa, 80% dos profissionais brasileiros revelaram gastar em média 4,7 horas por semana em sites não-relacionados ao trabalho. E a tendência é de alta: na pesquisa 2005, os brasileiros confessavam passar apenas 2,1 horas em navegação de lazer. Cresce também o acesso à pornografia on-line . Entre os entrevistados, 12% admitiram visitar sites desse tipo durante as horas de trabalho – ou em casa, mas com o notebook da empresa.

Os programas de mensagens instantâneas como MSN e ICQ – e até mesmo o Orkut – são outro tormento para os gestores de Recursos Humanos. O hábito de usar as ferramentas eletrônicas é tão forte que 64% dos funcionários brasileiros prefeririam deixar de tomar café da manhã a abrir mão do acesso à internet para fins pessoais no ambiente corporativo – dado também da Web@Work 2006.

Acesso restrito
Na tentativa de evitar abusos e perda de produtividade pelo desvio da atenção no trabalho, as empresas impõem limites e definem políticas de acesso aos meios eletrônicos corporativos. “Estima-se que 66% das empresas do Paraná já tenham imposto algum tipo de restrição ao uso pessoal das ferramentas digitais em horário de trabalho”, afirma José Antônio Fares, presidente da ABRH-PR.

Ao mesmo tempo em que distraem os colaboradores de suas funções, essas ferramentas trazem ganhos de produtividade: agilizam a busca de dados, a troca de informações e encurtam a distância dos contatos de negócios. Outro benefício é a redução de grandes e pequenos custos operacionais. Na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) de Porto Alegre, por exemplo, o uso do MSN reduziu a conta dos telefones fixos de R$ 3,5 mil para R$ 2,8 mil por mês. “O desafio das empresas é dar acesso às ferramentas tecnológicas e fazer com que sejam usadas de maneira produtiva”, aponta Amadeo Magedanz, gerente administrativo e de TI da ESPM.

Riscos de dentro e de fora
Há também riscos a gerenciar. O uso indiscriminado da rede corporativa abre os flancos do sistema para a contaminação por vírus e a transferência de arquivos confidenciais e estratégicos para fora da empresa. “Os funcionários não gostam de ser controlados, mas as políticas de bloqueio de acesso muitas vezes evitam as conseqüências negativas como advertências e até demissões”, destaca Marcos Prado, diretor da Websense ( leia matéria sobre questões jurídicas ). Alexandre Freire, consultor em segurança de sistemas e professor da UFRJ, aconselha que as empresas evitem a troca de arquivos com o ambiente externo. “O ideal é instruir os funcionários a deixar o MSN apenas para conversas internas e bloquear o e-mail para transferência de arquivos”, orienta o autor do livro Como Blindar Seu PC .

A tecnologia aperfeiçoa as ferramentas de navegação na Internet e de troca de mensagens instantâneas, mas também sofistica os programas de controle e monitoramento dos sistemas corporativos.

Entre as soluções mais comercializadas pela empresa gaúcha Processor está a CipherTrust IronIM. O programa monitora os conteúdos acessados pelos funcionários na Internet e audita os correios eletrônicos. Na prática, tudo o que é conversado via teclado fica gravado. “É possível, inclusive, obter dados como tempo de navegação na Internet, palavras-chave e determinar quem são os interlocutores mais freqüentes dessas conversas eletrônicas”, explica Cesar Leite, presidente da companhia.

Enquanto a maioria das organizações oscila entre a satisfação com os ganhos de produtividade e redução de custos e com a insatisfação gerada pelos problemas causados pelas ferramentas eletrônicas de trabalho, os especialistas em gestão de RH acreditam que é preciso dar um passo à frente. “As empresas precisam oferecer aos funcionários algo que vai além da tecnologia: valores éticos”, defende a consultora Andrea Huggard-Caine.

Lícito e ilícito na balança
Logo que as ferramentas digitais começaram a se popularizar no universo empresarial, a maioria dos advogados entendia que violar um e-mail era tão ilegal quanto abrir uma correspondência pessoal. Pouco a pouco, porém, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) criou jurisprudência e modificou esse entendimento. Hoje, a tendência jurídica é permitir o monitoramento quando os sistemas de informação são utilizados na execução do trabalho diário dentro das empresas.

“A propriedade dos hardwares e softwares é do empregador. Além do mais, as organizações têm o direito de se precaver, pois serão responsabilizadas caso um funcionário faça mau uso das ferramentas eletrônicas ao enviar um e-mail pornográfico por exemplo”, analisa a advogada Akira Valeska Fabrin, da Martinelli Advocacia Empresarial.

Mesmo com jurisprudência estabelecida, o assunto continua a despertar interesse e polêmica. No ano passado, a 1ª Turma do TST reconheceu o direito de uma organização de investigar o correio eletrônico corporativo de um funcionário em busca de provas para sustentar a demissão por justa causa. A notícia publicada no site do tribunal foi a que recebeu o maior número de visitas: 13.022 acessos. A decisão teve como relator o ministro João Oreste Dalazen e, segundo ele, o empregador pode exercer controle sobre a caixa postal dos colaboradores de forma “moderada, generalizada e impessoal, estritamente com a finalidade de evitar abusos”.

Para evitar mal-estar no ambiente da empresa e longas querelas judiciais, o melhor que as organizações podem fazer é estabelecer uma política de uso de todas as ferramentas eletrônicas: e-mail , MSN, Internet, entre outras. Inclusive fora do horário comercial. Na folga do almoço ou nas longas horas extras, o acesso à rede também pode ser coibido e controlado. “As normas são necessárias. Quanto mais transparente a relação entre empregador e empregados, melhor para todos”, aconselha Augusta Pölking, especialista da Veirano Advogados.

É a mesma opinião de Akira, da Martinelli Advocacia. A definição clara de uma política de uso da tecnologia da informação é a melhor forma de controle. “Como as pessoas estão cientes de que o uso é restrito e controlado, se houver abuso, o monitoramento não pode ser considerado violação da intimidade. E as advertências e até as demissões não poderão ser questionadas na Justiça”, avalia.

O risco de perder o emprego pelo uso descontrolado das ferramentas digitais não é realmente uma surpresa para os profissionais brasileiros. A pesquisa Web@Work 2006 revela que no Brasil 56% dos funcionários acreditam que infectar o sistema da empresa com vírus pode causar demissão.

Ainda que as organizações não tenham uma política clara com regras explícitas, o monitoramento do correio eletrônico corporativo continuará a ser considerado lícito. O mesmo não pode ser dito dos e-mails particulares acessados e enviados através de um provedor pago pelo próprio funcionário. “O correio pessoal pertence exclusivamente ao empregado como pessoa física. É quem contrata, paga o provedor e define o codinome a ser usado e responsabilizado por eventuais ônus”, explica Augusta, da Veirano.