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A comunicação que engana o patrão

Falso uso das técnicas comunicacionais nivela as empresas aos engodos dos políticos eleitoreiros

Eloi Zanetti

Um dos personagens mais astutos da mitologia grega foi Ulisses, o da Odisseia. Com o final da Guerra de Troia, o herói inicia um longo e tortuoso caminho da volta para a casa. Ulisses não contava com a simpatia dos deuses e, por isso, teve de enfrentar toda sorte de empecilhos na viagem - todos eles superados com muita lábia e artimanha. Por exemplo: ao ficar preso com os amigos na caverna do gigante Ciclope, aquele de um olho só, Ulisses afirmou ter um nome incomum. Quando perguntado, disse: “Meu nome é Ninguém” ou “Meu nome é Nada”. Ulisses cegou o Ciclope com um pedaço de lenha em chamas e iniciou a fuga do cativeiro. Enquanto isso, o monstro desesperado pedia ajuda aos outros gigantes e estes lhe perguntavam: “Quem te feriu?”. Ao que ele respondia: “Ninguém me feriu! Nada me feriu!”. Os outros gigantes, é claro, ficaram sem ter a quem procurar. Podemos dizer que esta foi uma artimanha de comunicação.

Assim estamos nos dias atuais: observando a comunicação empresarial ser ardilosamente montada para tentar enganar o público - mídia, clientes e stakeholders. O “me engana que eu gosto” já faz parte da nossa paisagem. Empresas se autopromovendo, bancando as boazinhas em pífias ações sociais e comunitárias anunciadas aos quatro ventos, sempre com muito barulho de comunicação. A turma está com a mão pesada e não mede esforços para se dizer engajada no marketing politicamente correto. Virou moda ser o salvador da humanidade. Este falso uso da comunicação, principalmente nas campanhas ditas “sociais”, nivela as empresas aos engodos dos políticos eleitoreiros e dos demagogos que a sociedade brasileira já não aguenta mais.

Se acreditarmos no que está sendo feito pelas empresas, poderemos dormir tranquilos: o mundo já está salvo. Não teremos aquecimento global, todos serão alfabetizados e educados, a fauna vai ser preservada, nossos jovens terão empregos de sobra e a tal da sustentabilidade vai assegurar a vida no planeta por muitos milhões de anos. Temos ações de sobra em todos os setores da nossa vida.

Analisando os casos apresentados, vê-se claramente que é muito trovão para pouca chuva. Se apertarmos e exigirmos respostas claras e resultados corretos das ações propaladas, veremos que não sobra quase nada. Só promessas e muito barulho em cima do que as empresas pretendem fazer. Como ninguém confere se a coisa acontece na prática, fica o dito pelo não dito, a empresa ganha mais um prêmio e a causa-fim resta abandonada. O brasileiro adora fazer e ouvir promessas. Está na nossa cultura prometer ao santo e não cumprir. Faz parte até do anedotário popular. Santo Antônio e São Benedito que o digam.

O abuso das técnicas da comunicação está levando a uma sensação de artificialidade e falsidade. A consequência tende a ser desanimadora. Vai ficar cada vez mais difícil convencer alguém quando quisermos falar de coisas sérias e verdadeiras.

Manipular a comunicação é um perigo em mãos inexperientes e mal-intencionadas. Hitler começou o seu trabalho de comunicação muito antes de o primeiro tiro da Segunda Guerra ser disparado. A juventude alemã foi enganada por meio de grandes projetos de comunicação. Governos que buscam o autoritarismo e a eterna permanência no poder estão usando e abusando da comunicação. Em muitos casos, com extrema inteligência. Hoje, há vários exemplos de políticos que se mostram extremamente hábeis na arte da sutileza, a maior força da comunicação.

As técnicas da comunicação são ferramentas muito fortes e nós, comunicadores, devemos nos proteger de nós mesmos. Temos de exigir e cobrar. E devemos nos recusar a enganar o nosso principal patrão - o público que nos escuta.