continuação: Os órfãos da reengenharia
Difícil de segurar
Para as empresas, a chegada dos jovens executivos representa uma virada na área de RH. Benefícios que até agora eram bastante desejados, como os planos de carreira ou as bonificações por tempo de trabalho, estão dando lugar a novas ferramentas de gestão e retenção de talentos. “Há outros fatores que, hoje, são bem mais importantes do que o tamanho do salário ou o status dentro da organização”, garante Rolando Pellicia, diretor da Hay do Brasil, consultoria especializada em gestão de pessoas. Logicamente, um desses fatores é a qualidade de vida.
A tecnologia abriu diversos canais que viabilizam o trabalho fora do ambiente corporativo. Por isso, os profissionais de menos idade gostam de definir claramente as fronteiras que separam a vida pessoal da vida no escritório – de forma que uma não se sobreponha à outra. “Eles se guiam pelo equilíbrio entre ser profissional e ser humano”, resume Pellicia. Outro fator determinante para fisgar o novo executivo é permitir que ele faça uso de todas as suas habilidades no trabalho – e não só daquelas necessárias para o desempenho de um cargo ou função. O pleno envolvimento serve como motivador. Recentemente, a própria Hay do Brasil realizou um estudo para descobrir o que levaria jovens executivos a abandonar o emprego. A maioria respondeu que pediria as contas se estivesse sendo subaproveitada. “Hoje em dia, a responsabilidade profissional de uma pessoa é do tamanho daquilo que ela consegue fazer”, conclui Pellicia.
A qualidade de vida e as oportunidades de crescimento fazem a cabeça do novo executivo. Já o salário é uma questão meramente secundária para ele
Em parte, isso explica por que as empresas têm investido tanto no mapeamento de competências e em práticas de coaching. São técnicas que ajudam a identificar as reais habilidades dos empregados, de maneira que nenhum talento seja desperdiçado em meio à burocracia corporativa. A partir daí, pagam-se os indivíduos de acordo com o que eles podem oferecer para a organização. Atualmente, a remuneração por competências é adotada em pouco mais de 24% das grandes companhias brasileiras – em 2002, o índice era de apenas 15%, segundo pesquisa da consultoria Deloitte. “O novo executivo lida muito bem com essa forma de contrato. Afinal, trata-se de uma forma de premiar o conhecimento e as diferentes habilidades que, cada vez mais precocemente, ele domina”, aponta Vicente Picarelli, sócio da área de gestão de capital humano da Delloite.
De quebra, a remuneração por competência é o sistema que melhor se adapta ao perfil dos jovens executivos. Há quem acredite que, num futuro breve, eles formarão a primeira leva de “empreendedores corporativos” das empresas brasileiras. São empregados que adotam um comportamento semelhante ao de pequenos empresários. Ou seja, perseguem a inovação, prospectam novos negócios e irradiam um grande poder de mobilização em suas companhias. E, acima de tudo, gostam de ser recompensados conforme os resultados que produzem. “É algo que ainda está só na teoria. Mas percebemos que, gradualmente, as organizações estão buscando funcionários com características semelhantes”, conta Eduardo Bom Ângelo, autor do livro Empreendedor Corporativo (Campus, 250 páginas). “Acredito que essa postura se tornará mais comum à medida que as escolas e universidades forem adotando disciplinas relacionadas ao empreendedorismo”, opina ele.
Na verdade, faz algum tempo que as instituições de ensino privado no país passam noções de empreendedorismo e administração a seus alunos. De certa forma, elas ajudam a forjar a geração que agora chega ao mercado de trabalho. “Trabalhamos muito a questão da perseverança e da tolerância aos riscos. Os jovens aprendem que isso é inerente aos negócios”, exemplifica Wilma Resende Araújo Santos, superintendente da Junior Achievement no Brasil, organização que estimula estudantes do ensino médio a gerenciar pequenos negócios.
Outra característica que as escolas estão embutindo nos executivos do futuro é a preocupação com o meio ambiente e com valores éticos e morais. Mesmo em disciplinas como Língua Portuguesa ou Geografia, os conteúdos são permeados de exemplos e lições que ressaltam a importância de se respeitar as relações com as pessoas e com o clima. “Mais tarde, os alunos tendem a levar esses valores para dentro das empresas”, prevê o sociólogo Rudá Ricci. Para um mercado de trabalho cada vez mais selvagem, trata-se de uma ótima notícia.
Com reportagem de Simone Fernandes e Sílvia Lisboa
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