Os órfãos da reengenharia
por Andreas Müller

Seus pais perderam o emprego no final dos anos 80. Seus currículos foram recheados de títulos e MBAs... Saiba o que esperar da mais nova geração de executivos a aterrissar nas empresas brasileiras

Fernando Campos é daqueles profissionais que entram cedo na vida corporativa. Começou a trabalhar com apenas 18 anos, como estagiário da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs). Aos 19, já havia sido promovido a coordenador de um importante programa de comércio exterior da entidade. Hoje, com apenas 24 anos, Campos ocupa o segundo cargo executivo de sua carreira – agora, na Ambev-Interbrew, da qual é gerente de projetos em Porto Alegre. Não é preciso dizer que ele está feliz na nova função. “Eu me identifico muito com a empresa. É um ambiente flexível e dinâmico, que me estimula bastante”, confessa. Nas horas vagas, Campos gosta de tocar violão. E ainda reserva um tempo para uma pós-graduação em Finanças, que será concluída em breve.

Theunis Marinho também começou cedo – mais precisamente aos 16 anos, para bancar os estudos. Ao contrário de Campos, porém, Marinho não começou a carreira pulando de uma grande empresa para outra. Ainda jovem, arranjou um emprego na Bayer Polímeros do Brasil e permaneceu lá durante 28 anos. Nesse período, conseguiu construir uma carreira prodigiosa. Dirigiu a unidade de negócios de óxido de ferro da Bayer na Alemanha. E ainda foi diretor-presidente da companhia para a América Latina. “Todas as minhas expectativas foram atendidas. Foi uma época muito feliz”, recorda ele. “Em compensação, deixei de lado muitas atividades das quais gostava, especialmente o lazer”, lamenta. Há pouco tempo, Marinho abandonou o emprego em nome da qualidade de vida. Hoje, aos 52 anos, é consultor de empresas.

O jovem Fernando Campos e o experiente Theunis Marinho têm muito em comum. Ambos começaram a trabalhar ainda adolescentes e seguiram carreiras bem-sucedidas dentro de empresas multinacionais. Há, porém, uma diferença fundamental entre eles. Campos pertence a uma geração que rejeita a idéia de trabalhar muitos anos para uma mesma empresa – ainda mais quando a qualidade de vida está em jogo. É a nova geração de “superexecutivos”, cujas características marcantes são a volubilidade e o individualismo. Em geral, são jovens recém-saídos das universidades e escolas de negócios do país. E que chegam ao mercado em busca de ascensão rápida e, principalmente, da chance de experimentar diversos empregos diferentes. “O novo executivo não tem paciência para ficar muito tempo na mesma empresa”, constata a psicóloga organizacional Zeila Bedin, diretora do Instituto de Desenvolvimento Global (IDG). “Ele troca de emprego tão logo percebe que o trabalho não corresponde às suas expectativas de evolução pessoal e profissional”, completa.

É claro que os vínculos de longa duração com as organizações ainda são valorizados e cobiçados – especialmente em um país que convive com índices ameaçadores de desemprego. Entretanto, os profissionais da nova geração tendem a encarar promessas de estabilidade com mais ceticismo do que seus antecessores.

Cada oportunidade é avaliada com pragmatismo. O emprego lhes proporciona um bom retorno financeiro, qualidade de vida e realização pessoal? Ótimo: dedicarão o tempo que for preciso ao cargo. Mas, se a empresa impõe uma rotina estressante, um ambiente conturbado e ainda menospreza valores éticos e sociais, aí nada feito. Tão logo puderem, os novatos vão partir para outra. “No fundo, esses jovens até gostariam de ter uma carreira mais estável. Ocorre que o próprio mercado de trabalho não permite mais isso. Então, eles correm na frente. Desde cedo, sabem que sua relação com as empresas será eterna apenas enquanto durar”, relata o headhunter Luiz Carlos Cabrera, sócio da Amrop Hever Group, uma das maiores empresas de recrutamento do mundo.

O individualismo e a flexibilidade para dar novos rumos à carreira são as marcas registradas do novo executivo. Lealdade ao emprego é coisa da geração passada

Para compensar a instabilidade, o novo executivo apresenta outra característica singular: exige crescimento rápido, tanto financeiro como profissional – ainda que, muitas vezes, sequer tenha a experiência necessária para isso. “Ele é muito focado nele mesmo”, analisa o consultor Antonio Moutinho, especialista em planejamento de carreira. Se não progridem no emprego, em um período aproximado de dois anos, os jovens logo começam a sondar novas oportunidades em outras companhias. A mudança tem pelo menos um aspecto positivo. “Antigamente, os profissionais deixavam suas carreiras na mão das empresas. Hoje, eles valorizam mais sua individualidade, deixando bem claro que estão lá em busca de resultados pessoais”, compara.

Não se pode, no entanto, confundir a postura particularista do novo executivo com arrogância ou egocentrismo. Por trás da atitude “cada um por si”, há um sentimento profundo de insegurança e apreensão com o mercado de trabalho. No final dos anos 80, boa parte dessa geração viu os pais serem repentinamente varridos de seus empregos pela onda da reengenharia e do downsizing.

A época também ficou marcada pela explosão dos workaholics, pessoas que dedicavam todo o seu tempo ao emprego, deixando de lado o convívio com os filhos – os executivos de hoje. “Esses jovens perceberam que toda aquela fidelidade que os pais dedicavam ao emprego não valeu a pena”, sintetiza Sofia Esteves do Amaral, sócia-diretora da DM Recursos Humanos, que recruta executivos para grandes companhias. Em outras palavras, manter vínculos superficiais com as organizações e priorizar o crescimento pessoal seria apenas uma forma de evitar os erros da velha guarda. “As pesquisas mostram que os jovens se cuidam muito mais. Eles querem ser bem-sucedidos, mas também fazem questão de reservar tempo para a família e recursos para exercer sua qualidade de vida”, detalha Sofia.

É evidente que desfrutar de todos esses privilégios é algo difícil no atual cenário corporativo. Apesar dos esforços para tornar o ambiente de trabalho mais saudável, a maioria das companhias brasileiras impõe uma rotina estafante para seus funcionários. “As empresas dizem valorizar a qualidade de vida e a saúde dos empregados. Mas a verdade é que elas querem um cara que vá lá e seja um workaholic”, acusa Robert Wong, presidente da Korn/Ferry do Brasil e um dos mais respeitados headhunters do país.

Para contornar essa realidade, o novo executivo aposta no aprendizado. Aqueles que têm condições se inscrevem em programas de MBA, universidades no exterior e cursos de pós-graduação antes mesmo de arranjar o primeiro emprego. Em tese, o supercurrículo poderá ajudá-los a abreviar as agruras da escalada profissional. “Costumamos dizer que, atualmente, os jovens vêm com air-bag, direção hidráulica e ar-condicionado de fábrica”, brinca Antônio Salvador, consultor de capital humano da IBM Business Consulting Services. Habilidades como fluência no inglês e no espanhol, domínio de informática e do e-learning deixaram de ser um diferencial para eles. “É aí que você percebe a diferença. A geração anterior levou cerca de dez anos para dominar essas ferramentas que, hoje, são básicas”, compara Salvador.

Atentas a esse movimento, algumas escolas de negócios já disponibilizam cursos específicos para o executivo júnior. É o caso da Fundação Getúlio Vargas (ISAE/FGV), do Paraná, que oferece um programa dirigido a egressos do ensino superior. O curso mescla aulas presenciais com e-learning e tem o objetivo de aprofundar conhecimentos nas grandes áreas da administração empresarial, como logística, recursos humanos etc. “Os próprios pais estão estimulando os filhos a fazerem MBA mais cedo, logo depois da graduação”, justifica Norman de Paula Arruda Filho, superintendente do ISAE/FGV.

Atualmente, cerca de 28% dos alunos matriculados na instituição paranaense têm, no máximo, 30 anos. É uma turma que exige atenção especial. “Esses jovens chegam com uma carga de informação extremamente elevada e com uma facilidade muito grande para aprender. São questionadores e provocadores”, descreve o superintendente. Devido a esse perfil, eles ficam em grupos separados. Raramente são misturados com colegas de maior idade. “É nossa maneira de evitar uma espécie de conflito de gerações em aula”, diverte-se Arruda.

Os jovens chegam ao mercado com um currículo que rivaliza com o dos executivos mais experientes. E exigem reconhecimento imediato por isso

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