Já mereci ser demitido
Roberto Justus diz que não é exatamente aquele chefe durão de O Aprendiz

Por Andréas Müller e Marcos Graciani

Quem acompanha o publicitário Roberto Justus, 51 anos, no programa O Aprendiz , da Rede Record, surpreende-se com seu modo áspero. O apresentador, formado em Administração de Empresas pela Universidade Mackenzie, assume o personagem carrasco na hora de demitir um funcionário, pelo menos, na eliminação de um integrante do reality show . Nesta entrevista, concedida à AMANHÃ de seu escritório em São Paulo , Justus revela que a percepção do público é equivocada. “Costumo dizer que no programa estou um tom que fica pouco acima do normal”, conta. Em menos de meia hora de conversa, de forma rápida, mas sem perder o humor, o publicitário mostra que transparência é a palavra-chave na hora de o patrão dispensar um trabalhador. “Você tem de ser justo na hora de explicar o porquê de estar fazendo aquilo”. Com 25 anos de experiência no mercado publicitário, Justus é sócio da Young & Rubicam. Ele também acumula o cargo de CEO do grupo Newcomm, que engloba a mesma Y&R e faz parte de um dos gigantes mundiais da comunicação, a WPP. Pode ser difícil de acreditar, mas Justus, bem-sucedido empresário, administrador de pelo menos seis empresas, já pensou em se demitir algumas vezes. Acompanhe o relato na entrevista.

O que você traz de O Aprendiz para os negócios?
Acho que é o inverso. Eu aprendi mais na vida real e trago para O Aprendiz mais do que o contrário. E, na verdade, hoje em dia, na posição de presidente e CEO do meu grupo, eu não faço demissões de pessoas daquela forma. Muito menos demitir 16 pessoas em dois meses. Na vida real, isso já não acontece comigo mais, mas já aconteceu no passado. Na verdade, aquilo é um laboratório de relações humanas fantástico. Eu tenho na minha frente a condição de fazer uma avaliação de candidato que na vida real não teria. Se você vai analisar candidatos a um emprego, vai olhar currículo, vai fazer algumas dinâmicas de RH, vai aplicar alguns testes para definir vocação e estilo, mas não vai utilizar testes reais. Com os meus aprendizes, eu tenho testes reais. Então, é um grande aprendizado ver como as pessoas reagem às mais inusitadas situações – quando são lideradas, quando têm de liderar um processo, quando vão para a rua com a surpresa de uma tarefa que não tinham idéia de que viria. Então, tudo isso é muito rico como avaliação de RH, e não é comum na vida real. Não estou recomendando que as empresas façam assim, mas, já que eu tenho essa oportunidade, acho que é muito bacana. E o público acompanha e entende quais os requisitos que você precisa ter para ser um grande executivo.

Quais características deve ter a pessoa que está comunicando a demissão?
É preciso ser muito objetivo, muito claro, fundamentar muito bem a sua decisão. Porque, ao mesmo tempo em que você está sendo um carrasco, naquele momento você tem de ser humano. Você tem de entender que a pessoa está perdendo o emprego, está perdendo o chão, a base de sustentação dela e da sua família. Então é muito difícil comunicar uma notícia dessas para alguém. No meu caso, há a atenuante de não ser perda de emprego, mas da oportunidade de ter um emprego comigo. Mesmo assim, esse momento é muito difícil e, apesar de ser bastante duro, eu procuro ser muito íntegro com essas pessoas – justificando, dando base de sustentação à minha decisão, para eles entenderem onde foi que erraram, por que um pequeno detalhe fez com que perdessem o emprego para outro candidato que está à minha frente. Portanto, a maneira de demitir é ser muito transparente, muito justo e ser muito eficaz na hora de explicar por que você está fazendo aquilo. É não deixar nenhuma dúvida no ar.

E na hora da contratação, quais são os valores que você prioriza?
Infelizmente, neste programa só tive dois momentos de contratação, contra 28 de demissão. O que eu tento sinalizar é que – além de ter uma formação acadêmica boa, de demonstrar interesse em aprender seu ofício – é muito importante a pessoa ser determinada. Eu gosto muito da pessoa que demonstra paixão por aquilo que faz, que demonstra capacidade de trabalho, liderança, que tem talento, visão. Valorizo aquele que enxerga mais do que um palmo à frente do nariz. Acho que qualquer grande realização é antecedida por uma grande visão. Por mais jovens que os aprendizes sejam, eu preciso ver que eles têm visão. Dentro do caso que o aprendiz teve de resolver, ele tem de mostrar que possui visão. E muita ética. São as qualidades que eu vejo, e fico observando as reações entre eles, comigo na sala, a capacidade de se defender, de ter personalidade para me enfrentar. E, no final, ganha aquele que reúne mais dessas qualidades que eu mencionei.

Você leva em conta a aparência do candidato na contratação?
Acho que aparência, compostura e estilo pessoal fazem parte da formação de uma pessoa. O que não pode é você exagerar na valorização desses itens, em contrapartida aos itens mais importantes, que são o conteúdo do candidato. Eu acho que um ser humano é composto de várias coisas, e o importante é aplicar um percentual de avaliação correto em relação a cada uma delas. Acho que uma pessoa que trabalha numa empresa de comunicação como a nossa tem de ser muito comunicativo, tem de ser extrovertido num certo ponto, tem de ser um bom vendedor – porque a gente vende a coisa mais intangível do mundo, que são idéias. Então, vender uma idéia, contar uma história é mais complicado do que mostrar e vender um produto que está na sua mão. E, para aquele que vai vender alguma coisa, é bom ter uma aparência adequada. Você não precisa ser bonito, precisa ter um bom cuidado. Não vai chegar um cara desdentado, com cabelo todo imundo, barbudo, desleixado, de tênis em vez de sapato. Isso não condiz com certas situações do mundo dos negócios. De modo que a aparência tem importância sim, principalmente na primeira impressão. Quando uma pessoa entra numa sala para fazer uma apresentação, para pedir um emprego, para fazer qualquer coisa, se estiver bem apresentada vai causar uma impressão muito melhor. Vai facilitar ser ouvida. O mundo dos negócios se abre mais facilmente para as pessoas que estão adequadas. É a mesma coisa que você ser convidado para um casamento, em que todo mundo vai de terno e você vai de short. Não cabe. Existe um sistema na nossa sociedade que exige certo grau de respeito. O mundo dos negócios não muda.

Você já foi demitido alguma vez?
Eu já tive vontade de me demitir algumas vezes, por algumas decisões erradas que eu tomei na vida. Mas, como fui meu próprio patrão, eu me poupei disso. Acabei não me demitindo. Eu fui empregado só uma vez na minha vida. Fui empregado do meu pai, no início da carreira. Estagiei na empresa de construção dele. E, em 1981, aos 25 anos, montei a minha primeira agência de publicidade. Até hoje, estou nesse ramo. Então, não fui demitido, mas algumas vezes talvez eu tenha merecido. No entanto, depois eu acabei fazendo um trabalho razoável que me trouxe até aqui.

Em que ocasiões você mereceria ter sido demitido?
Quando me arrependi de algum investimento malfeito, de entrar na hora errada em alguma coisa, de eventualmente ter sido injusto com alguém. Eu sempre me cobrei muito isso de manter uma retidão. Sempre fui muito exigente, muito detalhista para aceitar os erros naturais que todos cometem, e que eu, também, até hoje cometo. Acho que você ser um grande empresário é acertar mais do que errar, mas não tem como não errar. O índice de acerto fica maior e daí você tem um grande sucesso. Já houve momentos, porém, em que eu realmente falei: puxa, por que eu fiz assim? Mas eu nunca choro sobre leite derramado. O que passou, passou, olho para frente e tento resolver da melhor forma possível.

Você tem ministrado palestras em eventos de Recursos Humanos. Qual tem sido a essência de suas apresentações?
Eu falo basicamente sobre gestão e liderança. Acho que as pessoas identificam em mim um administrador com certa competência, e nisso até exageram um pouco. Mas eu estou aí para tentar passar ao jovem executivo que está começando carreira, ou mesmo para o empreendedor que já tem o seu negócio, quais são, na minha visão, os principais fundamentos na gestão dos negócios e na liderança.

O que faz um bom líder quando erra?
Primeiro, sabe reconhecer seu erro – o que é difícil quando a pessoa se acha acima do bem e do mal. E, no segundo movimento, sabe corrigir rumos. Ou seja, você errou e você reconhece que errou. A pior coisa que você pode fazer é insistir no erro e levar a empresa para o buraco. Você tem de saber corrigir rumos rapidamente. Eu prefiro ficar vermelho um minuto a amarelo para o resto da vida. Você tem de tomar decisões rápidas – o que é essencial para se ter sucesso no mundo de hoje. A decisão pode ser muito ruim naquele momento, mas vai extirpar o mal pela raiz para que você não sofra disso no futuro.

Até que ponto essa sua característica ajuda a conquistar contas de grandes anunciantes, como a das Casas Bahia?
Eu não sei te dizer até que ponto essa característica de gestão e liderança é a principal. Hoje, eu tenho de ter capacidade de atrair talentos para o meu negócio. Talento gera bom trabalho, bom trabalho gera satisfação de clientes e satisfação de clientes gera investimento. E assim cresce a roda do sucesso. Ser muito transparente e honesto com meus clientes, trazer para eles os melhores recursos do mercado, fazer um trabalho digno, pertinente, que seja adequado, recomendar não fazer quando é preciso... Com isso, acho que meus clientes se sentem gratificados e satisfeitos com a gente por atendermos sua necessidade de comunicação da melhor forma possível.

O ano de 2006 está sendo bom ou ruim para a propaganda brasileira?
Um ano bom. Um ano que tem dois eventos grandes. Um deles é a Copa do Mundo. E o outro é a própria eleição, que movimenta o mercado. Depois de três anos ruins, até 2004, o mercado já reagiu em 2005, que foi um grande ano. O primeiro trimestre de 2006 já mostrou que a tendência do ano é de crescimento outra vez. E nós, que somos líderes de mercado, estamos nessa maré. Somos a maior agência do Brasil, o maior grupo de comunicação, e estamos sentindo que nossos clientes estão acelerando.

Até que ponto os escândalos passados vão interferir no orçamento das campanhas eleitorais?
Eu, graças a Deus, não participo disso. Eu não tenho conta de governo e muito menos faço campanha de marketing político. Já fiz no passado. Mas não é uma área em que eu saiba transitar bem. Não gosto. Estou feliz de não estar participando e acho que foi bom para o mercado separar o joio do trigo. Muitas agências competentes e honestas trabalham para o governo. O governo em geral não pode ser sacrificado por alguns órgãos ou por algumas pessoas que transitavam de forma não muito ética. Mas acho que, com as normatizações que foram feitas para as eleições deste ano, essas limitações ao uso de recursos vão tornar as campanhas bem mais controladas. Acho que isso vai fazer bem para o mercado. Não é ilegal doar. O ilegal é você não ter como declarar a origem do dinheiro doado ou doar dinheiro por fora. Portanto, que as pessoas entendam que no mundo inteiro existe doação de campanha e que entrem com esses recursos de forma ordenada e correta. Acho que normatizar foi bom para o Brasil. Não acho que vai ser o ideal, ainda vai ter muita sujeira rolando, mas acho que já estamos melhores do que no passado.

O envolvimento de Marcos Valério e Duda Mendonça no escândalo do mensalão abalou a credibilidade dos publicitários brasileiros?
O que o Brasil costumeiramente faz é não separar as coisas. O Marcos Valério eu separo do Duda Mendonça em uma larga distância. O Duda Mendonça é um publicitário reconhecido, com talento. O Marcos Valério é um homem de negócios que estava em publicidade. O fato de ter acontecido esse tipo de episódio com algumas pessoas não deve sacrificar todas as agências e todos os publicitários do mercado. Não acho isso justo. Como não acho justo acusar indistintamente empreiteiras, bancos só porque nestes setores possa existir algum tipo de atividade que não é correta. Não se pode acusar um setor inteiro. Nem o próprio governo. Não são todos os políticos que são corruptos. A publicidade tem grandes nomes, grandes agências, que fazem um trabalho fantástico nesse nosso país e que é reconhecido no mundo inteiro. Não é justo que a atividade de uma ou duas pessoas leve todo o resto desse nosso mercado para dentro desse mesmo problema.

Quando é que se está fazendo uma boa contratação? Quando se está contratando um líder?
Não. Você não contrata somente líderes. Você contrata pessoas dos mais diversos perfis. A boa contratação é a daquela pessoa que tem um bom caráter, uma boa índole, que tem vontade de trabalhar coletivamente – porque hoje em dia você não consegue mais trabalhar sozinho em nada, a menos que seja profissional liberal. Se você trabalhar em empresa, precisa ter a habilidade de trabalhar com pessoas. E ter visão, determinação, paixão – aquelas características de que eu falei antes. São as características, é o perfil que a pessoa tem de ter para obter sucesso.