Continuação - O preço da escolha

O exemplo do College

Passado o vestibular, surge outro fator que estimula o troca-troca de cursos: a excessiva especialização do ensino superior no Brasil. Uma comparação com as universidades norte-americanas ajuda a entender o problema. Nos Estados Unidos, os jovens ingressam no ensino superior sem definir a profissão que vão seguir. “Eles escolhem apenas a área de atuação, como humanas, exatas etc. A profissão em si é definida só aos 20 anos, depois de os alunos passarem pelo College, em contato com diversas matérias básicas”, explica Annette Dan, coordenadora de admissão da Escola Internacional de Curitiba, que recebe estudantes estrangeiros. Na prática, os norte-americanos têm dois anos a mais que os brasileiros para decidir entre este ou aquele diploma. “No Brasil, os jovens precisam escolher uma especialidade antes de qualquer contato com a universidade”, compara o economista Roberto Macedo. Os dilemas entre uma carreira e outra se tornam inevitáveis.

“Essa excessiva especialização acaba prejudicando os profissionais até mesmo quando chega a hora de enfrentar o mercado de trabalho”, critica Macedo. Por um simples motivo: cada vez mais, as empresas buscam e valorizam os “especialistas-generalistas”, gente com habilidades específicas em uma determinada área, mas uma ampla carga de conhecimentos gerais. Macedo sustenta que esse perfil, hoje, é essencial para quem quer espaço no mercado de trabalho. A cada dia, surgem novas ocupações como webdesigner, diagramador, gerente de tecnologia da informação etc. O problema é que não existem cursos de nível superior para essas profissões. E a maioria das universidades brasileiras oferece currículos tão específicos que os estudantes acabam tendo dificuldades para exercer outras ocupações além da que está no diploma. “O vestibular deveria ser feito sem a escolha de curso. Uma vez na faculdade, o aluno teria aulas genéricas nos primeiros anos, como no College dos Estados Unidos”, defende o economista.

Outra saída para evitar erros e gastos desnecessários é os próprios adolescentes buscarem ajuda na hora da dúvida. Os serviços de orientação profissional têm avançado bastante na busca de um caminho para os indecisos. “O ideal é que se faça um trabalho desde o primeiro ano do segundo grau, que é o momento propício para esse tipo de atividade”, indica a psicóloga Lydia Joffily, especializada na área. É necessário, porém, ter certo cuidado com os chamados “testes vocacionais”. “A maioria não tem nenhum valor científico”, alerta a psicóloga Rosane Schotgues Levenfus. Velhos métodos, nos quais o jovem responde a uma série de perguntas e recebe a indicação de um ofício “ideal”, são vistos hoje como um simples e incerto chute. “O bom teste é aquele que simplesmente reconhece os interesses e fatores que podem levar o indivíduo à realização pessoal”, indica Rosane.

Atualmente, um dos trabalhos mais respeitados no meio acadêmico é o do Centro de Orientação Vocacional da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul. O centro é especializado em um método conhecido como Teste Visual de Interesses (TVI). Não é dos mais modernos – foi criado por volta de 1985. Em compensação, é um dos testes de maior lastro científico. “Buscamos levar as pessoas ao autoconhecimento”, esclarece Armando Marocco, diretor do Centro de Orientação Vocacional da Unisinos. “Afinal, tomar a decisão é fácil. Basta responder a uma pergunta crucial: quem sou eu?.” Simples, não?

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