O preço da escolha
por Andreas Müller
O velho problema de selecionar uma profissão continua levando milhares de jovens a desperdiçar fortunas em faculdades deixadas pela metade. De quem é a culpa?
Sandro Dalmina, 28 anos, é representante comercial de uma companhia de vendas diretas em São Miguel do Oeste (SC). Faz o que gosta: viaja todas as semanas e conhece pessoas dos mais variados tipos e lugares. E ainda é pago para isso. Pouca gente conhece, porém, o caminho tortuoso que Sandro percorreu até encontrar a profissão que hoje exerce com tanto gosto.
Seu currículo é um menu de cursos universitários deixados pela metade. Inclui dois anos e meio de Engenharia Civil, outros dois de Educação Artística e uma passagem breve por Rádio-Televisão. Isso sem contar o vestibular em Engenharia de Alimentos e as despesas com moradia nas cidades em que estudou Blumenau e Passo Fundo. Acho que gastei uns R$ 70 mil nesse tempo todo, estima. Hoje, Dalmina está determinado a devolver o dinheiro aos pais, que bancaram a conta. Também pretende terminar a faculdade de Educação Artística, embora isso não seja a prioridade. De que adianta ter um canudo na mão, se você é mais feliz vendendo picolé?, ilustra.
Sandro não é exceção. Há no Brasil uma legião de jovens que gasta fortunas experimentando este ou aquele curso universitário, simplesmente por não saberem qual deles seguir. É o velho drama da escolha da profissão, conhecido por boa parte das pessoas que já enfrentou um vestibular. E que continua sem solução, apesar dos consideráveis avanços nas técnicas de orientação vocacional.
Não por acaso, um número crescente de sociólogos, psicanalistas e outros especialistas têm defendido a idéia de que a indecisão não ocorre somente por força de uma crise pessoal. É um problema social. Envolve muito mais do que a falta de conhecimento do estudante sobre seus próprios gostos, interesses e aptidões. A tese prega que a família, amigos e até a mídia ajudam a causar o dilema. E que o próprio modelo brasileiro de ensino pode estar transformando a universidade num purgatório de jovens à procura de seu verdadeiro ofício.
No Brasil, o adolescente escolhe a profissão muito cedo, reclama Maria Célia Lassance, coordenadora do Serviço de Orientação Profissional da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (SOP-UFRGS). Ele chega à época do vestibular com uma média de idade em que a aprovação dos pais e dos amigos é muito importante. Aí opta pelo curso que dá mais status, ou por aquele de que os familiares parecem gostar mais, exemplifica. A futura insatisfação do jovem em casos como esse é quase inevitável. Tende a aparecer pouco tempo depois do ingresso na universidade, tão logo complete 20 ou 21 anos. É só a partir dessa idade, afinal, que a maioria dos jovens adquire maturidade suficiente para avaliar se estão na profissão de que realmente gostam.
Na prática, isso significa que a culpa de uma escolha malsucedida nem sempre é do aluno. Há todo um sistema que condiciona essa decisão na direção errada, indica o economista Roberto Macedo, autor do livro Seu Diploma, Sua Prancha (Saraiva, 260 páginas). Quem paga a conta é a própria sociedade. Mesmo as mais disputadas instituições públicas convivem com índices de evasão de amargar. Um estudo conduzido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) ao longo de dez anos mostra que, em média, 34% dos alunos que se matriculam na instituição abandonam a vaga. A faculdade de Física é a campeã das desistências: mais de 60% dos aspirantes se despedem antes de receber o diploma. Muitos deles não conhecem o curso e se assustam ao verem que exige muito estudo, relata Rosane de Albuquerque Sá Brito, coordenadora do Núcleo de Acompanhamento Acadêmico da UFPR.O problema se torna ainda maior quando começa a pesar no orçamento familiar. São as universidades privadas as que registram maiores índice de evasão (veja gráfico nas páginas seguintes). Um bom curso de Medicina, hoje, não sai por menos que R$ 1,4 mil mensais um valor alto demais para ser desperdiçado em desventuras com a escolha da profissão. Minha intenção era acabar a faculdade para depois fazer um MBA, recorda o empresário Carlos Henrique da Rosa Corrêa, 23 anos, dois deles passados na faculdade de Publicidade e Propaganda da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Um dia, recebi o boleto bancário e percebi que estava pagando por um curso que, na prática, nunca iria utilizar. Desisti na hora, revela. Ao todo, Corrêa estima ter desperdiçado cerca de R$ 20 mil.
O interessante é que, muitas vezes, são os próprios pais os vilões da história. Os especialistas estão convencidos de que eles mais atrapalham do que ajudam os filhos a tomarem um rumo profissional. Mesmo os que se esforçam para não palpitar sobre a escolha têm culpa no cartório. Ainda que não queiram, eles transmitem suas opiniões. Pode ser apenas um sinal, como um sorriso mais intenso ou uma expressão diferente no rosto, acusa o sociólogo Rudá Ricci, que faz palestras sobre o tema e preside a Consultoria de Políticas Públicas (CPP), empresa de Minas Gerais. Atentos, os filhos captam a mensagem subliminar. E não raro mergulham em um tenso conflito pessoal. É comum o jovem escolher uma profissão pela qual os pais demonstram maior apreço, mesmo que a opção não tenha nada a ver com gostos pessoais e personalidade, garante Ricci.
Um estudo da psicóloga Rosane Schotgues Levenfus, autora de diversos livros sobre o assunto, ressalta a influência dos pais em uma escolha profissional. O levantamento dá indícios de que jovens órfãos têm mais dificuldades para tomar a decisão. Dos adolescentes que procuram os serviços de orientação vocacional, cerca de 10% perderam o pai ou a mãe uma média surpreendente, garante Rosane. Também existe uma certa tendência de o adolescente seguir a profissão do pai falecido, comenta a psicóloga.
Isso não significa, é claro, que os pais sejam responsáveis pelo alto índice de evasão nas universidades brasileiras. Embora importante, a influência da família é apenas uma parte do problema. Bem maior é o número de adolescentes que optam pelo curso errado por uma questão de desinformação. Ou por terem uma imagem distorcida das profissões. Há sempre aquele garoto que gosta de surfar e acha que por isso deve fazer Oceanologia, diz Maria Célia, do SOP-UFRGS. Outro caso clássico é o do jovem que busca Arquitetura por gostar de desenhar, ou daquele que entra no Direito porque faz ótimos discursos.
O que tem intrigado os orientadores vocacionais, na verdade, é a origem de simplificações como essas. Afinal, se a escolha da profissão é tão importante, o que leva tantas pessoas a cometerem enganos tão crassos? O dedo de psicólogos e pedagogos aponta para o modelo de ensino médio e superior aplicado no Brasil. É muito raro as escolas brasileiras darem orientação vocacional aos alunos, queixa-se Dulce Helena Penna Soares, coordenadora do Laboratório de Orientação Profissional da Universidade Federal de Santa Catarina.
Resultado: as pessoas chegam ao vestibular conhecendo apenas parte dos cursos disponíveis. Então avaliam as opções de forma superficial, muitas vezes escolhendo a que simplesmente parece menos estranha. O ideal seria as escolas oferecerem uma disciplina regular de orientação profissional, principalmente no segundo grau, sugere Dulce, que acaba de lançar Orientação Vocacional Ocupacional (Artmed, 436 páginas) em co-autoria com Rosane Schotgues Levenfus.
É o que acontece na Europa (veja quadro É outro mundo ). Quando chegam à série equivalente ao primeiro ano do ensino médio, os franceses passam por uma bateria de atividades de orientação profissional. Desde então, decidem a área na qual vão exercer seu ofício biológicas, exatas, tecnológicas, literárias etc. Você define o que vai fazer com 15 ou 16 anos, detalha Janice Sfreddo, coordenadora da Agence EduFrance, que assessora jovens dispostos a estudar na França. Os próprios franceses reconhecem que é uma idade precoce para se tomar uma decisão tão importante. Mas, como o trabalho de orientação vocacional é feito desde cedo, o índice de escolhas erradas é menor. As pessoas se acostumam a pensar no assunto. Por isso, os erros de percurso são pouco freqüentes, palpita Yves Mahe, diretor da Aliança Francesa em Porto Alegre. Uma criação recente mostra a importância desse tema por lá: o governo da França acaba de fundar um Ministério da Formação Profissional, encarregado, entre outras coisas, de desenvolver políticas públicas para solucionar os dilemas vocacionais da população.
Aliás, em poucos países a escolha da profissão é tão cruel quanto no Brasil. A começar pela imposição do vestibular, disputadíssimo. Dizem os psicólogos que a dificuldade em superar os exames pode estar distorcendo a maneira como os jovens encaram a entrada na universidade.
É tão difícil enfrentar um vestibular, hoje, que os candidatos já valorizam mais o ato de passar nas provas que o de seguir o curso que realmente apreciam, defende Eliane Arbex, autora do livro Escolher a Profissão (Scipione, 69 páginas) e uma das fundadoras da Associação Brasileira de Orientadores Profissionais. Os próprios pais ajudam a enaltecer o êxito no vestibular mais do que o sucesso na escolha da profissão. Recebem os bixos com festa e não raro lhes dão presentes generosos. De quebra, transformam a entrada na universidade em um verdadeiro ritual para os filhos, como se isso fosse muito mais importante para eles do que seguir sua verdadeira vocação, descreve Eliane.
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