Xixi na mesa do chefe
Os comportamentos sombrios não devem ser ocultados sempre, mas é possível controlá-los. Algumas ações podem ajudá-lo a domXixi na mesa do chefe - Não é por acaso que profissionais como Kleinubing chegam a esse ponto. As empresas têm sua parcela de responsabilidade. Pouca transparência, informações desencontradas e falta de reconhecimento potencializam a manifestação de emoções perigosas. E o excesso de controle e rigidez pode funcionar como estopim. “Uma empresa do varejo gravava todas as conversas dos funcionários, e eles só podiam fazer horas extras na presença de seus chefes. É claro que poucas pessoas estão dispostas a trabalhar em uma empresa com esse perfil”, admite Bernt Entshev, headhunter que representa a Transearch no Brasil. A competitividade também pode-se transformar em erva daninha para a corporação. “Em organizações caracterizadas por lutas internas, esses impulsos prejudiciais geralmente são liberados na própria empresa, criando uma cultura em que prosperam vários tipos de sadismo”, alerta Gareth Morgan, no livro Imagens da Organização (Atlas, 421 páginas). Inveja e raiva podem levar profissionais descontentes a reproduzir a cena antológica do filme Como Enlouquecer Seu Chefe, em que funcionários de uma companhia destroem uma impressora a pauladas. “Também dão vazão a desejos nem sempre inconscientes como: ‘O dia em que eu for demitido vou fazer xixi na mesa do chefe’”, cita Ana Cristina, da USP.
A sombra não é atributo exclusivo dos profissionais. As empresas também ocultam seus podres, embora esteja cada vez mais difícil mantê-los escondidos. A diferença é que, enquanto a sombra de um indivíduo pode comprometer sua carreira, as potencialidades nefastas das empresas têm o poder de arrasar com o emprego de milhares de pessoas. “Por trás dos escândalos éticos e financeiros de Enron, WorldCom e Parmalat estão dois comportamentos descarriladores: o arrogante, que está acima de tudo, e o ardiloso, que desrespeita as leis”, analisa o consultor Roberto Affonso dos Santos, da Ateliê. “Quanto mais alto o posto, maior o efeito devastador dos descarriladores”, resume.
Se algumas corporações conseguem conduzir seus funcionários para o inferno, outras tentam devolvê-los ao paraíso. Quem trabalha no Citibank e está prestes a explodir pode fugir para uma das salas de descompressão, na sede do edifício, em plena Avenida Paulista. Como o próprio nome sugere, são ambientes feitos para aliviar as tensões. “Há cinco salas como essa, com sofás confortáveis, chás calmantes e música relaxante. Dá até para tirar um cochilo rápido”, conta Nora Ney, superintendente adjunta de recursos humanos do Citibank. O banco também acena com um reforço financeiro. “Temos o free choice, um benefício pelo qual cada funcionário recebe mais 2% de seu salário anual para usar em produtos ou serviços relacionados à qualidade de vida”, relata a executiva. Todos os funcionários têm direito à grana extra que pode virar mimos como aulas de dança, diárias de spa ou sessões de terapia.
O BankBoston vai além. Disponiliza até uma linha 0800 com psicólogo e advogados prontos para atender às emergências de funcionários do banco e familiares. A ação faz parte do Programa de Apoio Pessoal (PAP). Criada em 1996, a iniciativa beneficia 3.700 pessoas. Uma rede de cerca de 500 profissionais, entre terapeutas, nutricionistas e advogados, oferece serviços a preços subsidiados pela instituição. No ano passado, o banco registrou 9 mil atendimentos. O sucesso também se deve ao sigilo garantido aos funcionários. “Antes de uma reunião importante, o executivo que está muito ansioso pode ligar para o PAP”, avisa Marli Merguizo, gerente de recursos humanos. É uma ferramenta e tanto para evitar explosões e outras reações indesejadas. “Antes de trabalhar no banco, eu vivia no limite. Agora, entendi que o estresse é natural, mas, por segurança, mantenho o adesivo com o telefone do plantão de atendimento no meu computador”, relata uma funcionária da área de vendas.
Às vezes, a solução para combater os comportamentos arriscados está no próprio estilo de gestão da empresa. Desde 1997, a Nutrimental, de São José dos Pinhais (PR), aderiu à investigação apreciativa. A metodologia, criada pelo consultor norte-americano David Coperrider, valoriza os aspectos positivos da organização e das pessoas e prega o diálogo e a troca de informações. O sistema acabou se revelando eficaz para evitar que atitudes nefastas venham à tona. “Mesmo em uma situação difícil, se você focaliza primeiro o lado positivo, acaba desarmando as pessoas”, percebe João Alberto Bordignon, patrocinador executivo (uma espécie de diretor executivo) da Nutrimental.
A companhia pode ser aliada na hora de enfrentar os fantasmas internos. Mesmo em empresas que não dispõem de terapeutas de plantão ou serviços de aconselhamento, o diálogo é a melhor saída. Uma boa pista para saber se um executivo entrou para o grupo de risco dos descarriladores é olhar ao redor. Quem fica isolado e não é mais chamado para participar de eventos pode estar sob efeito de algum comportamento ameaçador. Mas mudar não é fácil. Uma saída é elaborar seu próprio plano de ação. “Em primeiro lugar, é preciso identificar o que está errado”, aconselha Liane de Carvalho, diretora de serviços de carreira da KPMG. Algumas atitudes simples como pensar antes de agir podem ajudar (Leia quadro “Como domar seu leão interno”). Em alguns casos, pode-se contratar um coaching profissional. O catarinense Marcos Paludo recorreu ao headhunter Bernt Entshev. Paludo trabalhou seis anos na Renault e foi dispensado. Depois, passou oito meses na Audi. “Eu sofria de entusiasmo”, conta. Paludo tinha vários planos, mas faltavam-lhe pés no chão. “Aprendi a colocar as questões na hora certa e fiquei menos ansioso”, reconhece. Os resultados do desenvolvimento pessoal do executivo se refletem nos números da Rudnick Veículos, de São Bento do Sul (SC), na qual trabalha há seis meses como diretor comercial. “Nesse período, as vendas passaram de 35 para 62 carros por mês.” E a sombra das virtudes de Paludo já não o atrapalha mais.
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