Bomba-relógio

Os comportamentos explosivos, que aniquilam carreiras, normalmente são acionados pelo estresse. “Ele pode exacerbar características que são positivas, transformando-as em negativas”, avisa Ana Maria Rossi, presidente da seção brasileira da International Stress Management Association (ISMA), uma associação mundial que trata da prevenção do estresse. “Sob tensão, os executivos reagem com um padrão de comportamento que pode sabotar seus empregos e carreiras”, alerta o consultor Ram Charan, autor de Desafio: Fazer Acontecer (Negócio, 264 páginas). Mas, na verdade, eles estão tentando se proteger. É um comportamento de regressão. “A pessoa retoma as atitudes que deram certo no passado, na infância, para se defender”, explica Ana Cristina Limongi-França, professora da Faculdade de Economia e Administração da USP.

Quando alguém aponta para uma situação que incomoda é como se um gatilho interno fosse disparado e a sombra assumisse o comando. “É o mecanismo de defesa”, avisa Dulce Magalhães, doutora em Planejamento de Carreira e sócia da Work Educação Empresarial.

Em situações de mudança, acende-se o alerta vermelho dos comportamentos. “Quando a empresa é comprada, realiza parcerias, faz demissões, novas características são exigidas. De repente, aquilo que servia até ontem já não serve mais”, avisa Patrícia Molino, diretora de recursos humanos da KPMG. Em uma situação de pressão, o profissional tende a manifestar aquilo que não controla. “Ele tem duas opções: ou põe as suas angústias para fora e machuca os outros ou as coloca para dentro e se machuca”, percebe Rubem Souza, sócio da RSA Talentos Executivos.

As duas são igualmente danosas. O passivo se sente inferior, capacho, não revela suas emoções e tem maior vulnerabilidade a doenças. “Ele enche o balão por toda a vida, até que um dia explode”, alerta a psicóloga Ana Maria. Muitas vezes, o executivo acaba ficando paralisado, quando mais precisa agir. “A cautela é extremamente positiva no exercício da liderança, mas a precaução em excesso pode ser destrutiva”, acredita Gino Oyamada, vice-presidente da Fesa Global Recruiters.

E pode comprometer a contratação do profissional. Um candidato a uma vaga na área de marketing de uma grande empresa tinha tudo para ser escolhido: reputação reconhecida, facilidade de relacionamento, bom currículo acadêmico. Mas, em momentos de estresse, ele preferia ponderar todos os aspectos possíveis e ouvir muitas opiniões. Com isso, suas decisões eram lentas. Resultado: perdeu preciosos pontos na seleção.

Nem quem se preocupa em satisfazer a todos escapa dos riscos de ser consumido pela sombra. “As pessoas que gostam de agradar podem ser populares por causa dessas qualidades, mas também podem fracassar por serem assim. Sua aversão ao conflito faz com que elas omitam opiniões contrárias que precisam ser ouvidas”, alertam Dotlich e Cairo. Um profissional que preferiu não ser identificado sofre desse mal. Ele busca relações sólidas e procura estar bem com todo o mundo. Mas, diante de crises e embates, tem dificuldade de assumir posições. Sua sombra freou sua ascensão profissional. Quando passou a ser reconhecido por não resolver conflitos, foi preterido na hora da promoção.

O excesso de iniciativa também pode não ser bem visto pela corporação. “A pessoa acaba invadindo outras áreas e extrapola questões pertinentes ao seu trabalho”, relata Oyamada, da Fesa. Alguns até se esquecem de que não são donos da empresa. Uma companhia gaúcha do segmento eletroeletrônico tinha um presidente exemplar. Talentoso, ele fez um bom trabalho na expansão da marca. Só se esqueceu de ouvir os acionistas, que eram os controladores da empresa. Por causa desse “detalhe”, acabou dispensado.

Motivação demais pode empurrar uma carreira para fora dos trilhos. Quem tem esse tipo de comportamento corre o risco de cair no melodrama. “Esses líderes começam com tudo. Possuem habilidades sociais excelentes, causam uma ótima primeira impressão e se promovem rapidamente, mas não conseguem cumprir seus compromissos”, relatam os consultores Cairo e Dotlich. Às vezes, atropelam colegas e processos. Foi o que ocorreu com um executivo de uma empresa gaúcha do setor de alimentos. Ele transferiu a sede para São Paulo, e a corporação perdeu força. A energia do profissional se transformou em agressividade. Ele se tornou explosivo e, é claro, terminou saindo da empresa.

Os aspectos sombrios de alguns executivos virtuosos também podem levá-los à implosão. Aos 47 anos, Gilberto Kleinubing traz em seu histórico um infarto e três pontes de safena. Até o ano passado, ocupava o posto de diretor-superintendente da Makenji, uma grife catarinense de vestuário. “Lá, eu precisava matar um leão por dia. O desgaste era enorme”, recorda. Kleinubing admite que era muito concentrador e que trabalhava demais: 12 horas por dia. Depois do colapso, parou de fumar, mas continuou trabalhando excessivamente até que precisou refazer duas pontes de safena. Só então, resolveu mudar de vez: passou a correr diariamente, a dedicar mais tempo para o lazer e a trabalhar menos. “Tenho novos valores. Estou mais paciente com os erros e valorizo as qualidades dos outros”, admite o executivo, que atualmente comanda a Bob Blues, uma confecção de Florianópolis.

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