Síndrome de Fórmula 1
O avanço tecnológico levou a vida corporativa para além dos limites de velocidade. Mas, afinal, o que ganham (e perdem) as empresas supersônicas?
Por Rogério Kiefer
Muita gente parece ter dúvidas, mas, até onde se sabe, os dias, as semanas e os anos não encurtaram. Ainda assim, a sensação geral é de que o relógio acelerou. Hoje, executivos, profissionais liberais e trabalhadores simplesmente não conseguem acomodar em apenas 24 horas todas as tarefas que precisam cumprir no dia. E as empresas, que em poucas décadas tiveram de aprender a competir em uma escala nunca vista antes, parecem obrigadas a exigir cada vez mais pressa. Resultado: os prazos para a realização de projetos estão mais curtos, a velocidade nas inovações se torna maior e a rotina de trabalho, estressante como nunca.
Basta analisar alguns dados para perceber como a vida corporativa acelerou. Em 1914, o pioneiro da indústria automobilística e das linhas de montagem, Henry Ford, comemorava a façanha de montar um carro a cada 93 minutos. Hoje, o Complexo Industrial Ford Nordeste, inaugurado pela subsidiária brasileira da montadora há quatro anos, desova um veículo a cada 80 segundos. Mais: sozinha, a IBM registra 3,5 mil patentes por ano. Significa dizer que sai dos laboratórios da companhia uma dezena de novidades por dia.
Hoje, há quase um consenso sobre o acerto da famosa Lei de Moore. Formulado há 40 anos por um dos fundadores da Intel, Gordon Moore, o enunciado previa que o número de transistores em um chip duplicaria a cada 18 meses. Mais do que uma questão de engenharia, essa regra, que segue de pé, revela quanto a miniaturização e a velocidade no processamento de dados podem avançar e atingir níveis inimagináveis para a maior parte das pessoas. E é bom lembrar que, desde os tempos mais remotos, há uma ligação direta entre o avanço tecnológico e a aceleração das atividades produtivas.
Além disso, o progresso não é acompanhado por uma elevação no número de trabalhadores empregados. Bem pelo contrário: desde as ondas de downsizing e reengenharia, que varreram as companhias ao redor do mundo, nas décadas de 80 e 90, as companhias crescem, mas mantêm quadros de pessoal enxutos – principalmente no médio e no alto escalões. “Com a diminuição no número de cargos, as pessoas têm mais tarefas. E essas tarefas são cada vez mais abrangentes, o que aumenta muito a responsabilidade dos trabalhadores”, afirma Clarice Martins Costa, presidente da seccional gaúcha da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH).
Desligar
Na prática, as mudanças que estão ocorrendo resultam em novas exigências, principalmente para executivos. Eles precisam tomar decisões em várias frentes diferentes e ter informações sobre tudo o que ocorre na empresa, o que acaba resultando em reuniões e mais reuniões. Além disso, como os cenários externos mudam de uma hora para outra, precisam estar em constante aperfeiçoamento para manter o posto de trabalho. Sem falar que parecem todos acorrentados a e-mails, celulares, lap tops e outras bugigangas tecnológicas que não deixam ninguém “desligar”.
Hoje, o diretor de uma empresa brasileira passa, em média, 11,3 horas por semana em reuniões. Se for uma empresa das grandes, com faturamento acima dos US$ 100 milhões, o índice sobe e chega a 12,5 horas semanais. Não bastasse isso, três em cada dez gestores dizem que dedicam mais de seis horas semanais para a atualização profissional.
Como não podia deixar de ser, tantas tarefas “esticam” as jornadas de trabalho, já que as tradicionais oito horas não são mais suficientes para acomodar as tarefas listadas como “para ontem”. “A jornada de trabalho no país está ficando mais comprida nas últimas décadas”, constata Ana Maria Rossi, presidente da International Stress Management Association (Isma) no Brasil. O brasileiro trabalhava, em média, entre 40 e 44 horas semanais nos anos 80. Hoje, o volume de horas no batente saltou para algo entre 52 e 54 horas. E ao que tudo indica o volume de horas dedicadas ao trabalho deve espichar ainda mais. Entre os norte-americanos, por exemplo, a jornada média já é de 65 horas semanais.
“Na minha opinião, conceitos como o do Ócio Criativo são apenas um sonho que dificilmente será realizado para a maior parte das pessoas”, reforça Ana Maria Rossi. O vice-presidente da Fesa Global Recruiters, empresa de recrutamento de executivos, Gino Oyamada, concorda. “Empresas e pessoas que não estiverem o tempo todo atentas às mudanças – ou até antecipando o novo – vão virar mastodontes e perder espaço. Não há como escapar disso”.
A bem da verdade, empresas e pessoas “aceleradas” sempre existiram. Mesmo no tempo em que caçava mamutes, o homem precisava voltar para casa rapidamente, antes que a família morresse de fome. E ainda tinha de achar um lugar seguro para dormir antes do anoitecer, quando podia virar comida de leões – risco que muita gente parece correr, hoje, nas cavernas das organizações. A partir daí, a preocupação com prazos, com fatores externos ao trabalho e com concorrentes continuou elevada e crescente. Mas nunca houve nada como agora. “As empresas estão em estado de alerta constante e os trabalhadores, em uma aceleração muito grande”, diz a consultora Fátima Trindade, da GW Vocação e Relações Humanas. “O problema é que hoje essa aceleração é tão grande que resulta em problemas de saúde e de relacionamento para os profissionais”.
Não por acaso, há pouco tempo começaram a ficar mais conhecidos males como a Síndrome de Burnout. Caracterizada por um quadro de esgotamento emocional, cansaço, irritabilidade e até consumo de álcool e drogas, a doença representa o estágio máximo do estresse. Além de afetar o “doente”, o mal pode resultar em problemas no próprio ambiente de trabalho, que tende a ficar mais tenso graças à instabilidade emocional da vítima. Há ainda efeitos da correria que são menos visíveis, mas igualmente danosos. “Muitas pessoas nem percebem, mas, por causa da exposição constante ao ritmo alucinante no trabalho, perdem o bom humor, brigam com mais freqüência com o parceiro e se afastam dos filhos”, diz Fátima Trindade.