Bom é quem se controla
Criador do Balanced Scorecard na gestão de carreiras, Hubert Rampersad garante: a competência mais importante é a autodisciplina

Por Andréas Muller*

Atualmente vivendo na Holanda, o consultor Hubert Rampersad vem fazendo sucesso no mundo todo com seu conceito de Total Performance Scorecard , mais conhecido como TPS. Trata-se de uma “evolução” do Balanced Scorecard . Para Rampersad, a consagrada ferramenta de planejamento estratégico pecava por deixar de fora, em suas perspectivas de monitoramento, a preocupação com o capital humano. “É um negócio chato. É blablablá”, dispara ele. Autor de Scorecard para Performance Total , lançado no Brasil pela Elsevier, Rampersad deu essa entrevista durante uma visita à Escola Superior de Administração, Direito e Economia (Esade), em Porto Alegre. E revelou como o seu conceito está ajudando a “salvar casamentos”.

AMANHÃ – Um dos grandes desafios do mundo corporativo é aliar a carreira a uma vida saudável. Qual é a sua receita para evitar que o trabalho afete a vida pessoal?
Hubert Rampersad –
Primeiramente, é preciso estabelecer uma regra: se você está feliz em casa, você estará feliz na sua empresa – e sua performance será melhor. Para que isso seja colocado em prática, não se deve pensar separadamente a “vida pessoal” da “vida profissional”. As duas esferas se referem ao mesmo indivíduo. Se você está infeliz em casa, você não conseguirá se sair bem no trabalho. E vice-versa. Os dois lados devem trazer realização.

AMANHÃ – Como o Total Perfomance Scorecard (TPS), a ferramenta que você criou, ajuda a equilibrar essa equação?
Rampersad – Recentemente, em Amsterdã, eu conheci um consultor de empresas, chamado Jack Johnson, em um dos seminários que promovemos por lá. Ele tinha problemas em casa: não dispunha mais de tempo para ficar com os filhos, e a esposa já começava a reclamar de suas ausências prolongadas. Ao mesmo tempo, seus negócios não iam bem – e tampouco sua saúde. Ele começou a engordar e ter problemas de ansiedade. Até que ele decidiu organizar esse caos, e fez isso utilizando o TPS. Tal como uma empresa que elabora o seu Balanced Scorecard , ele formulou sua missão, sua visão e os valores de sua vida pessoal. E depois elaborou uma tabela bastante complexa para monitorar os pontos cruciais na busca de sua missão, visão e valores.

AMANHÃ – Mas nas empresas o Balanced Scorecard é utilizado para monitorar coisas tangíveis: a produtividade, a quantidade de insumos utilizados etc. O que se pode medir em um BSC da vida pessoal? Seria algo como “quantos beijos dei na minha esposa hoje”?
Rampersad – Tudo que você faz e que ajuda a aproximá-lo de sua visão e missão pode ser colocado no papel. O acompanhamento deve ser diário e exige muita disciplina. Você precisa ser muito pró-ativo para gerenciar a si próprio. No caso de Jack Johnson, o objetivo era o de se reaproximar da família. Então ele começou a medir uma série de fatores: o tempo que dedicava à esposa e aos filhos, o número de conversas diárias com a esposa, o número de abraços dados nos filhos etc. Em resumo, ele começou a avaliar como se saía em fatores que o levavam a ser um bom pai e um bom marido.

AMANHÃ – Cada vez mais pessoas trabalham em casa ou com o chamado horário flexível. Você acredita que isso ajuda a melhorar a qualidade de vida?
Rampersad – Esse é um fenômeno interessante. Por causa da Internet, você pode trabalhar dia e noite de forma ininterrupta, mas sem se distanciar fisicamente de sua família. No entanto, é preciso ter controle. Quando os limites entre trabalho e família se apagam, só conseguem se sobressair aqueles que têm capacidade de auto-gerenciamento. Para trabalhar em casa, você não pode esperar que alguém chegue e diga o que deve ser feito. A tarefa é mais ampla: você mesmo é que precisa ter essa disciplina. Veja o meu caso: eu vôo pelo mundo inteiro todas as semanas. Daqui do Brasil, irei para Portugal, depois para a Rússia, depois Romênia e, posteriormente, terei de retornar à Rússia. Mas eu estou controlando meu tempo. Não preciso de um chefe me dizendo o que fazer ou deixar de fazer. Eu preciso apenas da minha própria capacidade de auto-gerenciamento. De resto, tudo que os outros podem me oferecer é um bom e honesto feedback .

AMANHÃ – Sua esposa não reclama de suas viagens e das semanas que você fica fora de casa?
Rampersad – Minha mulher entende perfeitamente a minha missão. Pois é a atividade que amo. É o meu sonho. Eu faço isso porque quero ver as pessoas mais felizes. Além disso, minha mulher também aceita a minha missão porque, convenhamos, estou fazendo dinheiro com isso... (risos).

AMANHÃ – Uma planilha pode mesmo ter um efeito tão positivo no cotidiano das pessoas?
Rampersad – Não se trata apenas de preencher uma planilha. A planilha, sozinha, não tem efeito. Você precisa utilizá-la como um meio de obter mais energia. Como um meio de gerenciar seu tempo com maior clareza e buscar seus objetivos pessoais. O TPS é um método, não uma panacéia. Quando bem utilizada, produz resultados impressionantes. Do contrário, não funciona.

AMANHÃ – Qual o pecado mais comum que as pessoas cometem no gerenciamento de suas carreiras?
Rampersad – As pessoas perdem muito tempo. Elas não gerenciam seu tempo de maneira inteligente, pois é difícil se gerenciar aquilo que não se enxerga. É preciso usar o tempo com inteligência. Em vez de assistir a TV, ficar com a família, dedicar tempo às coisas que são realmente importantes. Eu costumo dizer que estou salvando casamentos...

AMANHÃ – Não é estranho esperar que uma ferramenta de negócios objetiva e complexa como o Balanced Scorecard ajude a salvar casamentos?
Rampersad – De fato, o BSC tem esse problema: trata apenas da parte “inanimada” dos negócios. Quando falamos em Balanced Scorecard , pensamos em algo muito chato. Números, planejamento, contabilidade... Isso é chato. É frio. Precisávamos integrar o fator humano a essa ferramenta. E é o que venho tentando fazer.

AMANHÃ – Quer dizer que o Balanced Scorecard é uma ferramenta incompleta?
Rampersad – O método tem qualidades. Eu aprendi muito com o BSC. Aprendi com Stephen Covey, com Kaplan Norton, com Peter Senge... Eu aprendi muito com esses caras. Mas, depois que eu li os livros deles, eu pensei: “Não, está faltando alguma coisa aqui”. Para mim, aquilo não era concreto. Era nebuloso. Era blablablá. Não havia vínculo com meus anseios pessoais. E esse foi o meu achado. Eu vi que não havia integração entre o BSC e minha vida pessoal. E desde então essa tem sido a minha paixão, a minha obsessão: encontrar o equilíbrio. Minha missão é tornar as empresas e as pessoas mais felizes.

AMANHÃ – Você falou em receber feedback da família. Até que ponto a crítica da família é confiável?
Rampersad – Logicamente, você precisa ter confiança nas pessoas que vivem com você. Confiança é a palavra-chave. Sem confiança, as pessoas ficam com medo. Hoje em dia, nas empresas, os gerentes não ouvem. Eles não dão mais atenção às pessoas que os cercam. Ao buscar o feedback , porém, o gerente emite um sinal. Ele mostra aos funcionários que eles podem, sim, sentir-se à vontade para dizer o que pensam e sentem. E isso já ajuda a estabelecer um ambiente de aprendizado e de busca pela auto-realização. Nesse caso, o que vale para as empresas também funciona nos lares. Quando você formula o seu BSC pessoal, o feedback é uma parte essencial do processo – e é preciso confiar na resposta de seus familiares para que o sistema dê resultados. Sem isso, você não aprende e não melhora.

AMANHÃ – Você é filho de pais indianos. Há alguma influência religiosa – talvez do hinduísmo – que o motive a buscar o autocontrole e a autodisciplina?
Rampersad – Na verdade, eu sou católico e fui educado em escolas católicas. O que me motivou a buscar equilíbrio e disciplina não foi o hinduísmo ou qualquer influência indiana. Eu fui impelido pela Bíblia. Jesus Cristo dizia: “Deus está dentro de você”. Eu também li os livros do budismo e do hinduísmo, mas cheguei à conclusão de que, na essência, todos eles falavam a mesma coisa. Recentemente, fui ao Cairo, no Egito, onde fiz uma apresentação para cerca de 70 pessoas, todas muçulmanas. Elas tinham em mãos o meu livro. E vieram dizer, admiradas: “Hubert, o que você está dizendo sobre o TPS é o mesmo que diz o Alcorão”.

AMANHÃ – Existe uma infinidade de livros sobre carreira e liderança que prometem transformar pessoas comuns em líderes extraordinários. Você acha que com o TPS é mais fácil seguir o exemplo de pessoas como Jack Welch?
Rampersad – De fato, há livros demais sobre liderança, comunicação, trabalho em equipe. Eu posso encher toda essa sala com os livros que são lançados em uma única semana sobre liderança nos Estados Unidos. O problema é que a maior parte dos consumidores desse tipo de leitura não é pró-ativa. Eles lêem, mas não aplicam. Devíamos ter mais colhões para implementar o que lemos. O objetivo do TPS é justamente esse: criar um ambiente favorável à execução daquilo que ajuda a melhorar nossas vidas.

AMANHÃ – Executivos lendários como Jack Welch e Larry Bossidy não usavam o TPS. Eles eram apenas líderes excelentes. Você acha que estamos focando demais em liderança e pouco em disciplina e execução?
Rampersad – Pessoas como Welch e Bossidy são líderes extraordinários. Na verdade, eles usavam todos os elementos do Balanced Scorecard e alguns do TPS – mas eles faziam isso naturalmente. Como gerentes, eles buscavam medir tudo, tal como ocorre no BSC. E também tinham uma boa visão de seus objetivos e dos problemas-chave que deveriam resolver para alcançá-los. E, acima de tudo, eles tinham ambição. É o que tento passar com o TPS.

AMANHÃ – Qual é a característica mais importante em um líder: a disciplina ou o carisma?
Rampersad – Os líderes precisam ser verdadeiros coachs . Nada funciona se os líderes não acompanharem seus liderados de perto. Precisamos treinar nossos líderes para esse exercício. Precisamos treiná-los para acompanhar os liderados, ouvi-los, e para que consigam criar ambientes de confiança e aprendizado. Precisamos treinar nossos líderes para que sejam capazes de formar outros líderes. Aquele velho líder carismático, talentoso, não é mais suficiente para promover uma mudança real.

AMANHÃ – Na sua opinião, que tipo de líder está faltando no Brasil para que o País consiga crescer num ritmo semelhante ao de outras economias emergentes, como Rússia e China?
Rampersad – Eu leio os jornais e sei como estão os níveis de corrupção no País. No Brasil, vocês não precisam mais daquilo que os típicos líderes norte-americanos têm a oferecer – como talento, determinação, carisma etc. Vocês precisam de ferramentas e mecanismos que valorizem o capital humano e ajudem os líderes a ter uma disciplina de execução. O resto é blablablá.