Todo santo dia

 

Qual a forma mais plena de aproveitar cada dia da semana? Como fazer com que os momentos singulares da vida sejam capazes de sobreviver à passagem do tempo? A colunista Dulce Magalhães oferece suas respostas neste ensaio – especialmente produzido para a 200ª edição de AMANHÃ

Não há melhor assunto para se comentar em uma edição de aniversário do que o tempo. Afinal, o que comemoramos é a passagem do próprio. O tempo, porém, é composto de uma substância fluida, etérea e instável. Como falar de algo tão indefinível? Como esse conjunto de momentos que costumamos chamar de tempo – e que é a representação máxima de tudo que é transitório – pode encerrar a essência que habita em cada um de nós?

Nossos sentidos não são treinados para ver o todo. Vemos a vida por etapas, partes, seqüências, episódios. Nosso olhar vê tudo de um ponto de vista, pois não consegue abarcar toda a realidade. Nossa memória é a fragmentação da experiência. Só podemos guardar a maciez daquilo que tocamos, pois o intocado não pode ser percebido. Ouvimos e falamos limitados pela linguagem e pelos conceitos que somos capazes de decodificar.

Para ampliar nossos horizontes, precisamos percorrer de novo os caminhos conhecidos a partir de uma trajetória arquetípica. Ou seja, temos de ir além do analítico racional e exercitarmos nossa percepção na esfera do “simbólico intuitivo”. Toda a sabedoria se expressa em um espaço que vai além das palavras, das idéias objetivas e da experiência tangível. O sutil, o subjetivo e o intuído também são facetas da consciência. Sem um fundo de contraste, não é possível compreender as letras da superfície. Ler a vida é ver o que está escrito, feito, experimentado. E também perceber o todo que faz isso possível.

No nível simbólico, podemos acessar o que não foi explicado, mas deve ser compreendido. Há outros níveis de realidade não percebidos (microscópico, atômico, mental, imaginário etc) que coexistem com a realidade visível e desencadeiam uma espiral de acontecimentos – que nem sempre compreendemos. Como explicar as coincidências, as pequenas magias diárias, o sonho com sua linguagem tão subjetiva?

Se viajássemos pelos dias através do ambiente simbólico, com que profundidade experimentaríamos a vida? O que poderíamos acrescentar aos nossos sentidos para vivenciar todos os acontecimentos? Se enxergássemos o que não está aparente e compreendêssemos o que não é claro, talvez não pudéssemos impedir nenhum dos fatos. Entretanto, saberíamos lidar muito melhor com tudo o que acontece.

Vamos aproveitar, então, e navegar um pouco pelos mares simbólicos dos dias. Por que será que a semana é formada por um ciclo de sete dias? O que representa cada um dos dias? Não sabemos de onde viemos, nem para onde vamos. Mas ao menos devemos tentar compreender onde estamos.

O conhecimento compartilhado da filosofia, das artes, das ciências e das tradições gerou uma visão mais holística e ampla, permitindo a concepção de uma “teoria geral de correlações” – onde tudo está relacionado a tudo. Um dia, por exemplo, pode equivaler a um mito, que equivale a um astro celeste, que equivale a um signo, que equivale a uma cor, que equivale a um sentimento, que equivale... e assim sucessivamente.

Por vezes, a compreensão de episódios que se repetem em nossa vida pode ocorrer por meio dos simbolismos, das correlações que formam as teias nas quais bordamos nossa existência. Compreender o simbólico para superar o ilusório que nos cerca é um dos passos fundamentais que devemos trilhar no caminho extenso da consciência.

Compreender aquilo que fica de tudo que é transitório é mergulhar na própria essência da vida e beber do mais puro sabor da verdade. Acertar, errar, ganhar, perder, estar feliz ou infeliz são apenas partes do intrincado espelho da ilusão. Ora estamos numa condição, ora noutra. Tudo o que passa não pode ser o propósito da vida. A dor, a perda e o sofrimento também são parte desta experiência de Maia, a deusa da ilusão para os hindus.

O que é perene, então? Tudo aquilo que não desaparece, mesmo com a morte. A existência passa, só a vida é perene. E o que representa cada dia desta vida é o que vamos ver na seqüência.

DOMINGO
“A consciência é uma fenda pela qual espiamos a realidade.”

Os dias ressoam em uma determinada freqüência, assim como cada música tem sua própria vibração. A nomeação dos dias e as correlações que daí resultam não podem ser atribuídas a um mero acaso, pois nomear é criar a realidade. O simbolismo do domingo
é curiosamente representado ao longo da história humana de uma forma repetida em diferentes culturas.

Domingo é o dia do Senhor (dies Domini) na tradição judaico-cristã. O dia em que o sol rege a consciência. O astro brilhante é também a representação da alegria. Quando estamos desconectados do momento, o domingo pode se transformar no mais melancólico dos dias, pois seu simbolismo exige atividade, clareza, percepção e presença.

Outros povos também definiram seu dia solar com a representação da alegria, da expansão, da celebração da vida.

Se o domingo ressoa mesmo essa vibração, é um desperdício tremendo passarmos o dia sem planos, sem aventuras, sem encontros. Mais do que isso, pode conduzir a um sentimento de tristeza e desânimo, pois o que não vibra em sintonia fica fora de ritmo, desafina.

A melhor forma de aproveitar a energia subjacente do domingo, que foi feito sob medida para recarregar nossas baterias, é programar um dia sem preocupações, com amigos, em atividades lúdicas que podem envolver contatos com a natureza, artes e troca de histórias divertidas.

SEGUNDA-FEIRA
“Não tenhas pressa. Aonde tens de ir é só a ti mesmo.”

O dia da lua (lunes em espanhol, lunedi em italiano e somvar em sânscrito) aparece como primeiro na semana de trabalho porque é o dia do planejamento por excelência. Em contraposição à expansividade do sol, a lua é um convite à interioridade, a estar em sintonia com nossa própria intimidade, sem aceleração ou agitação. A freqüência lunar é semelhante às ondas alfa do cérebro, onde há um nível maior de percepção e genialidade. Porém essa sensibilidade precisa de proteção.

Evitar lugares movimentados e sobrecarga de atividades é a recomendação para o planejador, o arquétipo da segunda-feira. Intimidade é a palavra- chave. Isso significa voltar-se para dentro, ir em busca de si mesmo. Planejar é decidir, ou seja, escolher por que caminhos se vai seguir. Isso não quer dizer que podemos definir tudo o que ocorrerá pelo caminho. Mas essa definição, por si só, coloca em movimento uma nova roda da vida.

É por isso que a segunda-feira é um excelente dia para o cultivo da meditação, da contemplação, para escrever um diário, para refletir sobre o que se deseja e sobre o que fazer para se transmutar a realidade do que “está” para “o que se busca”. Se dedicássemos pelo menos a segunda-feira para revisar e repensar nossa jornada, que outros percursos, ainda não percebidos, poderíamos trilhar? Como diz o poeta, não há caminho. O caminho se faz ao caminhar.

TERÇA-FEIRA
“A morte é só outro estágio de ausência.”

Chegamos ao momento do confronto. Terça-feira (martes em espanhol, mardi em francês, martedi em italiano e mangalwar para os hindus) é o dia de Marte, o deus romano da guerra. A ressonância de terça é para acabar com as pendências, desde arrumar as gavetas até ter a conversa franca que se estava adiando.

Permanecer estagnado em situações não resolvidas é fenecer. Tudo o que está ausente já está morto. Somente quando colocamos nossa consciência na presença do momento é que podemos desfrutar da brisa saudável da vida. A guerra ou o confronto não são os opostos da paz, a estagnação é que é. Não é possível estar em paz sem dissolver os nós angustiantes daquilo que está pendente, não resolvido.

O conflito não explorado, a pendência não solucionada, a ansiedade não revelada se transformam em emaranhados internos, que atrapalham o pensar, o agir e o mudar. Para ser livre, é preciso resolver-se, compreender que todo pensamento é vestígio do passado e que, para seguir adiante, é preciso ir além do pensamento. É preciso vivenciar o que dói para curar.

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Quarta, quinta, sexta-feira e sábado