Dá para confiar?
Por Leila Navarro*
Antes que você comece a achar que o assunto deste artigo não tem nada a ver com sua carreira, já vou avisando: tem sim, e muito.
O assunto é confiança, ou melhor, a falta dela. Cada vez mais o mundo parece um lugar cheio de perigos e ameaças, onde a desconfiança torna-se um item de sobrevivência. Vemos tanta coisa acontecer por aí que, quase por automatismo, começamos a suspeitar de tudo: do estranho que nos aborda na rua para pedir informação, do e-mail com remetente desconhecido, do entregador de pizza, do telefonema por engano. É como se houvesse uma regra implícita que diz: se você não conhecer uma pessoa, desconfie dela.
Também somos alvo da desconfiança dos outros. Se um dia você tiver a paciência de contar quantas câmeras de vigilância encontra em seu caminho, começando pela que está no elevador do seu prédio, se sentirá tão observado quando um participante do Big Brother . É detector de metais na porta do banco, é Raio-x no aeroporto... Parece que ninguém está acima de qualquer suspeita. A gente desconfia dos outros, os outros desconfiam da gente... E assim, todos tratam de proteger o que possuem da cobiça alheia.
A desconfiança paira também no ambiente de trabalho. A diferença é que, se no mundo lá fora nos prevenimos contra ameaças à nossa segurança e aos nossos bens materiais, na empresa sentimos que é preciso nos defender das incertezas, das mudanças e do clima de competição.
Para começar, como as diretrizes das empresas podem mudar de uma hora para outra para acompanhar o mercado – que também muda sem aviso –, vivemos com o pé atrás. Como confiar nas promessas que os dirigentes fazem? Como confiar no que eles falam se a qualquer momento algo pode acontecer e mudar tudo? Isso quando eles não dizem uma coisa e fazem outra (e olhe que já vimos esse filme tantas vezes...).
Existe também a desconfiança em relação aos nossos pares. Num ambiente competitivo, onde todos lutam para se sobressair, parece mais seguro contar o milagre, mas não contar o santo. Ou seja, reter informações estratégicas e evitar compartilhar certos conhecimentos – as armas que usamos para nos defender da “concorrência”. Há quem sequer conte o próprio milagre! Certa vez, uma amiga me confidenciou que tivera uma grande sacada para resolver um problema da firma, mas só a revelaria quando se sentisse segura para isso. “Não posso permitir que alguém roube minha idéia”, justificou ela. Fiquei pensando: quantas pessoas não fazem o mesmo por falta de confiança nos outros?
Compreendo que ninguém é desconfiado porque quer, muito menos porque gosta. As circunstâncias do mundo em que vivemos nos levam a isso e nos fazem acreditar que precisamos estar sempre na defensiva para não ser prejudicados. Acho, porém, que essa falta de confiança generalizada também nos prejudica.
Quem vive com um pé atrás não vai para frente. Precisamos sair desse ciclo “ninguém merece confiança, eu não confio em ninguém e ninguém confia em mim” porque ele nos acovarda, retrai e isola. Quem pode crescer na carreira desse jeito, quando o que se requer é exatamente o oposto – que a gente se arrisque, expanda e interaja com os outros? Só a confiança é capaz de nos predispor a isso.
Imagino que você esteja se perguntando: mas dá para confiar? Dá sim. No artigo do próximo mês, pode confiar, veremos como. Até lá!
* Leila Navarro é colunista do Empregos.com.br, conferencista internacional e autora dos livros "Talento para ser feliz" e "Obrigado, equipe" (Ed. Gente).