O Pavão, o Urubu, Karl Marx e o Peru            (27.04.09)

Por Alex Born*

A crise que assola o mercado não está sendo fácil não.
Há anos o mundo espera, de maneira inadequada, por um tsunami que balance os pilares que sustentam a economia global.
Mas, será que ninguém sabia que algo estava para acontecer?
Havíamos esperado que a fase de decantação permitisse aos dirigentes do mundo inteiro extrair as conseqüências do afundamento do sistema que organiza o planeta desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Se pegarmos o livro Das Kapital – do Alemão Karl Marx, veremos que em um dos trechos mais contundentes, conhecido como “A Provocação”, ele cita:

"Os donos do capital vão estimular a classe trabalhadora a comprar bens caros e casas, fazendo-os dever cada vez mais, até que se torne insuportável. O débito não pago levará os bancos à falência, que terão que ser nacionalizados pelo Estado"
Karl Marx, in Das Kapital, 1867

Nada mais, nada menos do que a dissertação, na íntegra, da pavorosa crise que vivemos atualmente.

Voltando o tema para o que acontece dentro das empresas, muitos de nós, meros colaboradores (não tão meros assim), podemos perceber o quanto a crise que afeta a minha, a sua, ou seja, as nossas empresas poderia ter sido evitada, ou ao menos, amenizada.
O empregado, funcionário ou colaborador, como quer que se queira denominar, pode sim perceber o que acontece no entorno de seus lindos olhinhos e observar que algo pode vir a se complicar. Explico...

Quando vemos uma empresa com o seu departamento administrativo agitado, o financeiro recluso, e ambos em constantes reuniões, é melhor começarmos a “pensar e questionar: Ué?!”.
Se a secretária que, geralmente, levava infindáveis cafezinhos começa a ser proibida de entrar na sala durante as reuniões, ou se todos dentro da sala param de falar quando ela entra, agora é melhor “Ficarmos espertos”.
Se na seqüência, começamos a participar de reuniões extraordinárias, avisando que o mercado encontra-se em um período de crise e que será necessário mais motivação e engajamento, onde todos do time estejam comprometidos, essa é a hora de “abrir os olhos”.

Pois é, é aqui que eu entro.
A maior parte dos colaboradores que conheço sente que algo está errado e age de duas maneiras:
1ª) Finge que não sabe de nada.
2ª) Mostra que está preocupado, mas, não quer se envolver e termina dizendo: “Vamos ver no que dá.”
Essa postura faz com que as empresas ganhem uma atmosfera defensiva, perca criatividade e os índices de comprometimento baixem significativamente. É nessa hora que podemos confundir quem está ali para ajudar e quem está ali apenas para atuar de maneira teórica, oferecendo aquela forcinha superficial, vindo com frases como: “Pode contar comigo!! Eu estou comprometido!!”

O comprometimento de um time ou uma equipe não pode ser medido apenas pelo apelo emocional. É preciso muito mais do que uma frase carinhosa, ou uma boa vontade sem sentido, expelida somente para demonstrar o medo de uma demissão.

Cabe aos líderes saber ler nas entrelinhas e observar quem realmente quer mudar e se adequar às novas vertentes. Cabe aos verdadeiros líderes saber quem está engajado no trabalho, colaborando profissionalmente e cumprindo com o que a empresa precisa.

Muitos colaboradores se fecham e operam de maneira mais lógica e funcional, mas, não conseguem se comunicar como deveriam, ou seja, não conseguem vender o seu melhor, apenas por não saberem se auto promover. Enquanto isso, outros, mais perspicazes e audazes, sabem se mostrar e usar a comunicação em proveito próprio.
E qual é o melhor, o que faz ou o que fala?

Em momentos de crise, um líder precisa distinguir entre o que é bom e o que é melhor, pois, o que é ruim é facilmente detectado. E como eu citei no início, o processo de decantação, onde separamos o joio do trigo deve ser feito de maneira rápida e coesa.

Tem um conto japonês milenar que é mais ou menos assim:
Em uma planície, viviam um Urubu e um Pavão. Certo dia, o Pavão refletiu:
- Sou a ave mais bonita do mundo animal, tenho uma plumagem colorida e exuberante, porém nem voar eu posso, de modo a mostrar minha beleza. Feliz é o Urubu que é livre para voar para onde o vento o levar.
O Urubu, por sua vez , também refletia no alto de uma árvore:
- Que infeliz ave sou eu, a mais feia de todo o reino animal e ainda tenho que voar e ser visto por todos, quem me dera ser belo e vistoso tal qual aquele Pavão.
Foi quando ambas as aves tiveram uma brilhante idéia em comum e se juntaram para discorrer sobre ela: cruzar-se seria ótimo para ambos, gerando um descendente que voasse como o Urubu e tivesse a graciosidade de um Pavão...
Então cruzaram... e daí nasceu o peru:  QUE É FEIO PÁCAS  E NÃO VOA!!!

Moral da história: "Se tá ruim, é melhor agir com inteligência. Agir de maneira impensada só piora as coisas!!"

Meu conselho em períodos de crise é para que líderes e liderados façam mais do que simplesmente adotar as mesmas posturas, em períodos de crise vale a receita do diferencial, pois, atitudes diferentes trarão resultados diferentes, mas, cautela sempre é bom e conserva o emprego e o empregador.

*Alex Born é conferencista, consultor e escritor. Formado em Administração de Empresas e Educação Física, possui mestrado em Gestão Estratégica de Empresas e é especialista em Gestão de Pessoas. Com trabalhos realizados em 20 países, Born é autor dos livros: Você é pessoa ou tomate?! , Travelers, trotters and backpackers – The ultimate guide , Indo e vindo, Coleção Empresarial: ‘Kooperation Twist' , Neuromarketing – O genoma do marketing, o genoma das vendas e do método de ensino TOP ENGLISH.

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