Entrevista

por Priscila Mendes

Pegunta

Falar mal da ex-chefe ou passar por incompetente?

Fui desligada da última empresa logo após completar o meu período de estabilidade por licença-maternidade. Apesar de todo o meu bom desempenho profissional (registrado em avaliação de desempenho anual), desde o início nunca tive um bom relacionamento pessoal com a minha superior direta.

Sei que o desligamento se deu por este motivo, mas a explicação dada foi de que a empresa iria passar por uma série de mudanças e uma delas seria o meu desligamento.

Com o susto do momento, acabei não questionando de forma mais profunda os reais motivos.

Em uma entrevista (para não falar mal da ex-chefa e nem parecer incompetente) o que devo dizer quando me questionarem qual o motivo da minha saída do último emprego?

Obrigado
Gleici Garcia
São Paulo/SP

Resposta

Gleici,

Concordo que esta seja uma situação delicada, porém é bem mais comum do que você imagina.

Quando ocorre uma demissão, ela normalmente está ligada a fatores pessoais e não a fatores técnicos ou outros, como reestruturação. Porém, poucas são as empresas que têm a coragem de explicitar o verdadeiro motivo, com medo da reação do funcionário. Isto ocorre principalmente porque a própria empresa deveria ter feito um trabalho anterior junto ao funcionário, orientando-o a realizar algumas mudanças em suas atitudes e comportamentos. Ao invés disto, elas simplesmente ignoram a possibilidade de ajudá-lo a melhorar determinados aspectos e optam por desligá-lo, por ser “mais simples”.

Casos de demissões por não adaptação ao estilo de gestão também são bastante comuns. E o que a maioria das pessoas não se dá conta é que isto não significa necessariamente que o ex-chefe era ruim e você uma boa profissional, mas simplesmente, que os estilos não eram compatíveis.

Para exemplificar: você pode ter um gerente com o qual você se dê super bem; vocês se entendem perfeitamente e você o considera o melhor chefe do mundo. Um belo dia, você descobre que a pessoa a quem você substituiu não gostava dele e tinha um péssimo relacionamento. Num primeiro momento, você pode achar que o problema era da pessoa, mas imagine que você também a conheça e saiba que não haveria motivos para que os dois não se dessem bem, mas era exatamente o que acontecia. Acredite: isto pode ocorrer por incompatibilidade dos estilos de trabalho.

Imagine um gerente extremamente exigente e rigoroso, que acompanha cada passo do seu trabalho e analisa minuciosamente o que você produziu para não deixar passar nenhum erro. Apesar disso, ele é super compreensivo e tem muita paciência para lhe ensinar; você aprende muito com ele.

Agora imagine um outro gerente que lhe deixa trabalhar com maior autonomia, não lhe dando muitas ferramentas para trabalhar, mas lhe deixando completamente livre para desenvolver o trabalho da forma que você achar melhor. Porém, neste caso, ele também lhe fará sentir absolutamente responsável pelos erros que eventualmente você cometer.

Qual dos dois você acha melhor ou pior?

Provavelmente você escolherá um e outros leitores poderão escolher outro. Depende do estilo de trabalho de cada um. Algumas pessoas preferem a autonomia, ainda que ela venha com toda a responsabilidade junto. Outras preferem não ter muita autonomia para desenvolver, porém, aprender cada detalhe do trabalho com uma pessoa que consideram mais experiente.

Com este exemplo, pretendi lhe mostrar que não foi nenhum crime o fato de você e sua gerente não terem se adaptado uma ao estilo da outra; simplesmente por terem estilos diferentes. Isso não significa que uma estava certa (ou era boa) e a outra estava errada (ou era ruim). Sendo assim, faça uma análise de qual era o estilo dela e qual é o seu e o motivo pelo qual não houve adaptação. Procure não pensar nos aspectos negativos, mas nos fatos, de forma simples.

Tenho certeza de que assim, você encontrará os argumentos certos para se justificar em uma entrevista, sem utilizar termos que desmereçam sua antiga gerente e sem parecer incompetente.

Boa sorte!

Priscila