Sonho que se sonha junto é realidade
por Neide Silva Albuquerque*

Às vezes tenho dificuldade para escrever todas as coisas que aprendo e vivencio em todos esses meus anos como voluntária. Só quem realmente tem um coração voluntário pode entender o que eu sinto: a emoção de poder contribuir para ajudar os outros; o quanto é lindo o sorriso de uma criança que já não tem fome; o beijo de uma velhinha quando você doa algumas horas do seu dia para escutá-la; o conforto que trazemos ao doente quando seguramos sua mão; proporcionar agasalho quem tem frio. São emoções que dão um nó no peito e se misturam com uma sensação de alegria e tristeza. Alegria porque naquele momento estou ali para ajudar; e tristeza porque sei que infelizmente não vou poder ajudar a todos.

Tenho um sonho que alguns podem achar que é uma utopia, mas gostaria de não precisar fazer mais nenhum trabalho voluntário, porque não haveria mais ninguém doente, passando fome ou frio. Baseada na afirmativa "Sonho que se sonha só é só um sonho e sonho que se sonha junto é realidade", minha esperança é que um dia este sonho se realize.

Muitas pessoas só reconhecem o trabalho voluntário quando este é desenvolvido dentro de alguma entidade, esquecendo que este começa dentro de casa ou em volta da mesma.

Por ser o Ano do Voluntariado, hoje se fala no assunto, mas o espírito do voluntariado deve estar presente em todas as nossas pequenas ações do dia, quando damos carona aos nossos vizinhos; quando levamos os filhos de amigas para a escola; quando amamentamos os nossos próprios filhos; quando abrimos mão de algumas coisas em prol do outro ou até da nossa própria família; quando emprestamos nosso ombro aos nossos amigos; quando enxugamos os olhos de alguém que perdeu um ente querido ; quando choramos ou rimos com as pessoas que convivemos; quando atravessamos pessoas na rua; quando damos o nosso lugar na fila; e até no supermercado, deixando alguém passar na nossa frente. Cada um de nós poderia escrever páginas e páginas de trabalho voluntário, que fazemos sem mesmo nos dar conta.

Há muitos anos atrás, senhoras pertencentes a famílias de alto poder aquisitivo, movidas por pena ou solidariedade começaram a distribuir alimentos e roupas para pessoas carentes. Foi quando começou o chamado assistencialismo, tão debatido e criticado atualmente.

Sabemos que a vontade de ajudar a outros é a base essencial do trabalho voluntário, mas qual o tipo de ajuda ideal?

Doar o que comer, roupas ou qualquer coisa pode não ser o modo mais acertado, porém, existem certas situações, como a fome, por exemplo, em que a resposta deve ser rápida, e não pode esperar por longos planejamentos e discussões mais profundas.

Os processos de discussão e as alternativas propostas de mudança nos rumos do voluntariado mostram que estamos no caminho certo.

Precisamos observar que cabe ao voluntário manter o equilíbrio entre a razão e o coração, isto é, entendemos a importância do profissionalismo chegando ao Terceiro Setor, mas nunca poderemos esquecer, que o início deste movimento, se deu por uma sensibilidade, que poderíamos chamar de "coracional".

No Brasil, a cultura do voluntariado é nova, tanto que pesquisa recente aponta que cerca de 70% da população desconhece o trabalho voluntário. Podemos reverter este quadro fazendo do voluntário um fenômeno social, que juntamente com o Terceiro Setor, provoque mudanças importante no desenvolvimento social do País. É nosso objetivo consolidar a participação do voluntário como agente de transformação que reflete uma preocupação da sociedade civil para o aperfeiçoamento das relações sociais.

Embora 2001 seja o Ano Internacional do Voluntário, não iremos conseguir mudar tão rapidamente o panorama nacional. As alterações culturais, muitas vezes, demoram gerações antes de se fixar.

Acreditando na possibilidade de mudanças, este é um marco nesta árdua luta de conseguir um País com um povo mais solidário e consciente. E, para que esta transformação aconteça o mais rápido possível, o trabalho voluntário é essencial.

* Neide Silva Albuquerque é coordenadora do Voluntariado da Fundação Orsa.

 
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