Pessoas em primeiro lugar
por
Luiz Cláudio Diniz*

Segundo pesquisa realizada em 2003 pelo jornal Valor Econômico, em parceria com a consultoria internacional Hay Group, dentre as 40 empresas classificadas em todo o Brasil como as melhores em gestão de pessoas, 85% apresentaram no último ano um lucro acima de 9% em relação ao patrimônio líquido. Este resultado é ainda mais significativo se considerarmos que neste mesmo período 84% das mil maiores empresas em faturamento no Brasil apresentaram um prejuízo médio de 2,6 % sobre o patrimônio líquido.

Resultados como estes evidenciam a relação entre gestão de pessoas e lucratividade, e isto não é um privilégio brasileiro. Estas mesmas evidências são confirmadas pela revista americana Fortune em seu ranking “Top Ten 2003” destacando companhias (americanas e não americanas) como Wal-Mart, GE, Microsoft, FedEx, Dell Computer, Shell, Nestlê, entre outras, consideradas exemplos de sucesso em gestão de pessoas e lucratividade.

O que estas companhias têm em comum? Excelência em organização humana. Elas colocam as pessoas em primeiro lugar.

A velocidade inerente ao mundo moderno nos traz muitos benefícios, mas em contraponto transforma máquinas, ferramentas e até mesmo tecnologias em recursos obsoletos ou, na melhor das hipóteses, em “commodities”. É neste cenário de mudanças rápidas que as organizações de sucesso utilizam suas “estratégias de diferenciação”. Elas buscam desesperadamente caminhos que lhes assegurem liderança de mercado. Elas lutam para ser as melhores e a primeira escolha de seus clientes.

Então, como ser “diferente” em um mundo tão competitivo e veloz?

Nestes novos tempos, as companhias consideradas referência de sucesso passam a utilizar como “diferenciais competitivos” as competências humanas como a criatividade, capacidade de interação, comunicação, cooperação, ética, etc.

O que realmente diferencia as organizações de sucesso sustentado das demais não é, definitivamente, a qualidade dos recursos que possuem, mas sim a qualidade das pessoas que administram estes recursos. Mais especificamente, a qualidade da “organização humana”, a maneira como as pessoas se organizam em torno das estratégias, como se relacionam entre si e com o mercado, como aprendem em grupo, como utilizam suas energias e conhecimentos na condução do negócio, etc.

Não podemos nos esquecer de que são as pessoas que escrevem as estratégias, que desenham e implementam processos, que geram as soluções. São elas que lidam com as adversidades do dia-a-dia dos negócios.

Podemos, nesse contexto, fazer uma distinção ente dois termos que muitas vezes utilizamos com o mesmo significado: “empresa” e “organização”. Para “Empresa” utilizaremos o significado de: empreendimento, negócio, esforço direcionado a um objetivo. Para “Organização”, o significado de: conjunto de pessoas que trabalham cooperativamente em direção a um objetivo comum, ou em outras palavras, em torno de uma “Empresa”.

Quando falamos aqui de organização estamos falando do conjunto de pessoas e quando falamos de empresa estamos falando da ação destas pessoas. Nesse sentido podemos afirmar que “A empresa resulta em sucesso quando a organização é bem construída”.

Nas organizações de sucesso sustentado os recursos humanos são considerados como os principais ativos porque são eles que qualificam e dão vida aos demais recursos. Desta forma, nunca se tornam obsoletos, ao contrário, são sempre o diferencial estratégico mais importante.

A área de Recursos Humanos tem um papel fundamental neste contexto, desde o desenho até a implementação das estratégias. Contratar pessoas certas, para o lugar certo, criar uma atmosfera estimulante e administrar as complexas relações entre as pessoas, são atribuições básicas do RH. No entanto, uma de suas maiores contribuições dentro da organização é a remoção das barreiras entre as áreas funcionais.

A comunicação livre de barreiras assegura a sinergia de todos os envolvidos na empresa (funcionários, clientes e fornecedores); além disso, permite maior velocidade na execução dos processos, na solução dos problemas e na implementação das estratégias de negócio, especialmente quando é imprescindível extrair energia e paixão do grupo para vencer desafios e superar resultados.

Outra contribuição importante do RH é propiciar à organização o autoconhecimento. Isto significa conhecer cada colaborador, suas habilidades, talentos, interesses, expectativas e sua forma de interação com o grupo. Significa também reconhecer cada grupo como um organismo vivo, com inteligência e dinâmica própria.

Uma cultura que valoriza a transparência nas relações e a comunicação sem barreiras fortalece e acelera este processo de autoconhecimento.

Seria relativamente simples para a organização se cada colaborador “funcionasse” da mesma forma, reagisse da mesma maneira frente às situações. Seria relativamente simples se todos pudessem funcionar com o mesmo “software”. Mas não é assim!! Cada um de nós possui (consciente ou inconscientemente) uma agenda pessoal repleta de fantasias, interesses, medos e desejos e é com base nesta agenda que modelamos nosso comportamento e tomamos nossas decisões.

Enquanto indivíduos, quanto mais conhecermos nossas agendas, mais assertivos seremos em nossas interações com o grupo e através do grupo com a própria organização.

Nas organizações de sucesso, “pessoas em primeiro lugar” não é apenas uma política de fachada, muito além disso, é uma forte crença, um valor verdadeiro.

* Luiz Cláudio Diniz é especialista em Gestão de Recursos Humanos com carreira desenvolvida em empresas multinacionais como Xerox do Brasil, SKF e Chr. Hansen. Nesta área possui sólida vivência em cenários de transformação, fusões, start-ups, mudanças estruturais e funcionais. Graduado em Psicologia com especialização em Gestão Estratégica de Negócios pela Fundação Getúlio Vargas.

 
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