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Entrevista
- Ana Botafogo
por
Renata Marucci
Depois
de 24 anos de carreira, mais de 20 deles como primeira
bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, Ana Botafogo
conta um pouco de sua trajetória - da decisão de ser bailarina
até a realização do sonho de ser a número um.
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- Como o "ballet" entrou para a sua vida?
Ana Botafogo - Comecei a estudar "ballet" aos 7 anos, no
mesmo conservatório em que estudava música, no Rio de Janeiro.
Aos 11 anos, ingressei na academia de dança da bailarina Leda
Iuqui. Desde então, sempre sonhei em ser bailarina, porém achava
muito difícil e distante de mim. Ainda assim, não pensava e
nem queria parar de dançar.
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- Quando começou a dançar profissionalmente?
Ana Botafogo - Estudei na academia da Leda até os 17 anos
e parei quando decidi ir para a França, estudar francês e talvez,
"ballet". Mas depois de dois meses e meio na França consegui
meu primeiro contrato profissional. Passei a fazer parte do
Ballet de Marseille, dirigido por Roland Petit. Esse foi um
período bastante rico. Amadureci, porque estava em um lugar
muito diferente da minha casa e a comunicação com o Brasil era
difícil. Eu era extremamente tímida e por necessidade, me tornei
mais segura e mais descontraída. Aprendi muito mais sobre dança.
Era uma companhia pequena, mas de muito bons profissionais.
Foi nessa época que tive certeza de que queria fazer aquilo
para o resto da minha vida. Fiquei dois anos dançando na França
e depois, mais seis meses na Inglaterra, em Londres. Mas como
não consegui visto de trabalho para ficar na Inglaterra, achei
que era hora de voltar para o Brasil.
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- Sua volta para o Brasil foi como você imaginava?
Ana Botafogo - Cheguei aqui cheia de vontade e com o sonho
de entrar para o Teatro Municipal. Mas a dança estava meio em
baixa no Brasil e o Municipal do Rio de Janeiro, em reforma.
Precisei segurar a ansiedade. Para minha sorte, surgiu o convite
para trabalhar no corpo de "ballet" do Teatro Guaíra, em Curitiba,
como primeira bailarina do Teatro. Foi uma época ótima. Minha
primeira aparição profissional no Rio de Janeiro foi com o "ballet"
do Teatro Guaíra, com o espetáculo "Gisele".
Empregos.com.br - Em 1981 você entrou para o corpo de dança
do Teatro Municipal do Rio de Janeiro já como primeira bailarina.
Isso é comum?
Ana Botafogo - De fato, não é muito comum, mas já conheciam
meu trabalho e sabiam da minha trajetória, de todo o meu esforço
e por isso me aprovaram. Minha estréia como primeira bailarina
aconteceu no espetáculo Coppélia, o qual já refiz muitas outras
vezes durante esses 20 anos de Municipal, incluindo apresentações
internacionais. Nesses 20 anos, participei de todas as temporadas
de "ballet" clássicas e de algumas de "ballet" contemporâneo.
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- Nunca pensou em fazer outra coisa que não fosse dançar?
Ana Botafogo - Antes de ir para a Europa, comecei a cursar
a Faculdade de Letras. Tranquei para viajar, tentei voltar ao
curso algumas vezes, mas foi inviável. Ainda gostaria de terminar
a faculdade, mas por enquanto está impossível, até porque a
dança é minha prioridade.
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- É muito complicado conciliar a dança com outras atividades?
Ana Botafogo - É sim. Além de viagens, a rotina é bastante
puxada. Antes, entre aulas e ensaios, nossa carga horária era
de 8 horas. Hoje, temos 6 horas de carga horária, sendo 1h30
de aula e durante o dia acontecem diversos ensaios. Nem sempre
todos os bailarinos participam de todos os ensaios. Quando acontece
de ter um horário livre, aproveito para tocar projetos pessoais.
Tenho que ensaiar projetos completamente diferentes na mesma
época, então qualquer tempo disponível se torna uma benção.
Empregos.com.br - Como você avalia o mercado de trabalho para
os bailarinos?
Ana Botafogo - A vida de bailarino é bastante complicada,
principalmente porque não há campo de trabalho suficiente para
absorver a quantidade de profissionais competentes que temos
no país. Imagine então os bailarinos em potencial! Hoje a situação
é muito melhor do que há 20 anos - o próprio corpo de dança
em que atuo aumentou o número de componentes de 15 para 115
bailarinos - mas ainda é difícil. Até hoje, existem apenas 6
companhias oficiais de "ballet" clássico. Várias companhias
privadas de dança contemporânea foram fundadas, mas poucas são
reconhecidas, como é o caso do tradicional Ballet Stagium, Grupo
Corpo, Cisne Negro e da moderna Débora Kolcker.
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- O que é preciso para ser um bom bailarino?
Ana Botafogo - Muito estudo, dedicação, disciplina, perseverança
- porque em muitos momentos o trabalho é repetitivo - e ter
muita determinação para vencer. Resumindo, muito suor, às vezes
lágrimas e muito trabalho. Nem nas férias é possível parar.
Eu diminuo a carga horária, mas é impossível parar. Por causa
de tanta dificuldade, tem muita gente que entra, às vezes até
mesmo para uma companhia oficial, e desiste.
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- E dá para viver da dança?
Ana Botafogo - É muito duro, mas é possível. Embora poucas
pessoas consigam viver dignamente da dança. Mas há outras possibilidades
como dar aula de dança e coreografar espetáculos. Nesses casos,
pode ser bem interessante cursar uma faculdade de dança, para
adquirir embasamento teórico e boas noções sobre o corpo humano.
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- Você já tem tudo o que quer? É uma mulher de sucesso?
Ana Botafogo - Ainda não me considero uma mulher de sucesso.
Acredito que tenho uma carreira bem sucedida e reconhecida.
Mas não tenho essa sensação nem a pretensão de acreditar que
já realizei tudo o que podia e queria. Ainda falta, sempre falta.
Continuo estudando e investindo em mim. Acho que o bailarino
nunca pára de investir nele. E comigo vai ser assim até o dia
em que eu parar de dançar.
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- Quais são seus projetos?
Ana Botafogo - No momento estou ensaiando "A Megera Domada",
que está com a estréia prevista para o dia 17 de maio próximo.
Era um sonho fazer esse espetáculo porque é bastante diferente
de tudo o que já fiz. Além disso, pretendo viajar por todo o
Brasil com o espetáculo "Três Momentos do Amor". Esse espetáculo
foi concebido por mim e pela pianista Lilian Barreto. Já fizemos
10 apresentações em Brasília e fomos muito bem recebidas pelo
público. São seis músicos no palco, eu e dois bailarinos. É
algo que me dá muito prazer e estou me esforçando para que realmente
dê certo.
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